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O Género Literário - Norma e Transgressão  190 Seite(n)
The Literary Genre - Norm and Transgression
John Greenfield (ed . )

O Género Literário - Norma e Transgressão
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Ausschnitt aus dem Kapitel: Uma Obra em Busca de um Género (Considerações sobre o Romance Histórico enquanto Género)
 
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important sense [ ... ]’ . normas que estabelecem a designação gené 1 Cf . Schaeffer (1989), p . 9: ‘[ ... ] Hegel [ ... p . 1: ‘Traditional definitions of genre focused on textual regularities . In traditional literary studies the genres sonnet, tragedy, variam ou se surgem novas formas de estruturar a linguagem . Hegel constata que só a literatura possui géneros 1 ode, etc . – were defined by conventions of form and content’ . 4 Cf . Schaeffer (1989), p . . Na realidade, não só ao longo dos tempos o mesmo género corresponde a actualizações textuais diversas, 4 como as determinada circunstância ou propósito . Situação mais ou menos inalterável mantém se até ao século XIX, mesmo se as regras 139: ‘Autrement dit, les effets divers et imprévisibles induits par la reprise, à des époques différentes,des mêmes traits génériques ne em convenções de forma e conteúdo, 3 o que levaria ideal mente a uma uniformidade que está longe de existir d’une oeuvre à une norme, ou plutôt à un ensemble de règles’ . 3 Cf . Freedman / Medway (1994), a sua representação . Esta estabilidade, aparentemente pacificadora, legitima e valida a escolha do género que melhor se aplicará a ] soutient qu’en réalité seule la littérature possède des genres [ ... ]’ . 2 Cf . , Schaeffer (1989), e que estes servem prioritariamente para julgar da conformidade ou não de uma obra a um padrão pré determinado . sont qu’un cas particulier du phénomène beaucoup plus général qui est celui de la variabilité dans le temps des phénomènes p . 33: ‘[ ... ] les notions génériques sont essentiellement conçues comme critères servant à juger de la conformité entre poesia e história ou entre a tragédia e a epopeia (trad . de Sousa, 1985, pp . 115ss . e 146ss . , respectivamente), normaliza vários tipos de escrita, ou melhor, de modos de relacionamento com o real e textuels regroupés sous un même nom’ e Miller (1994), p . 68: ‘It is probably also the case that a genre that seems to occur in two rather distinct times and places will not really be “the same” in an Uma Obra em Busca de um Género (Considerações sobre o Romance Histórico enquanto Género) Aristóteles, ao estabelecer claramente a diferença 2 Como afirmam Aviva Freedman e Peter Med way, as definições tradicionais baseiam se em regularidades textuais e apoiam se
 
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par le fait que manifestement ils ne se réfèrent pas tous au même ordre de phénomènes’ . 6 Miller (1994), do género assentem, antes de mais, nas semelhan ças entre tipos de discurso e a compreensão social e cultural da users, yet users and their discourse communities constantly remake and reshape them . Most importantly, genres are inherently ideological; they o género está intimamente ligado com a realidade cultural que lhe está subjacente 6 e tenta responder às necessidades que pragmática do que de definições preconcebidas . Catherine F . Schryer alerta para o condicionamento que o género inflige no term “genre” has been able to connect a recognition of regularities in discourse types with a broader social and cultural help construct their culture’ . 7 Cf . Freedman / Medway (1994), p . 1: ‘[ ... ] the new as typified responses to social contexts, and if such contexts are inevitably fluid and dynamic, what sense can it make dominant élite does things’ . . 5 Tal consciencialização leva à percepção de que, e apesar de todas as tentativas de sistematização e de normalização, (1994), p . 108: ‘All genres have a complex set of relations with past texts and with other present texts: 5 Cf . Schaeffer (1989), p . 79: ‘Or, lorsqu’on part des noms de genres, on est frappé au contraire essa mesma realidade lhe exige . Como veremos, a transgressão que os géneros tradicionais sofrem a partir do Romantismo, o Maria de Fátima Marinho 132 rica não são sempre uniformes nem se baseiam em critérios decorrentes de uma análise idêntica to explicate features of historical genres (and all genres are historical) as a way of teaching or learning?’ 9 Schryer utente e para a recíproca influência, ideológica e comportamental, que este tem naquele . 9 Daí que usar um determinado que dificulta uma catalogação estável e definitiva, no sentido em que era commumemente entendida, leva a que as novas concepções understanding of language in use’ . 8 Cf . Freedman / Medway (1994), p . 10: ‘If genres are understood lingua gem em uso, 7 dado que estes se transformam em respostas tipificadas a contextos sociais, 8 relevando mais da p . 69: ‘Finally, “new historical” work in literary studies has begun to understand genres as cultural constructions that reflexively embody the unexamined or tacit way of performing some social action . Hence they can represent the ways that a genres come from somewhere and are transforming into something else . Because they exist before their users, genres shape their
 
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um dos géneros foi sofrendo, levar nos á, com certeza, a relativizar a importância da catalogação e a tentar encontrar dizer de Stendhal (trad . Lobo, 1987, p . 146) . Vejamos a definição de Musset: ‘O Romantismo, meu caro a diversos níveis, não pode ficar alheio a uma estratificação demasiado simplista dos géneros ou a uma rigidez a que nos dedos . O Romantismo é a estrela que plange, é o vento que geme, é a noite que estremece, a flor que perfuma e o pássaro que voa; é o gesto inesperado, é o êxtase enlanguescido, o poço sob a inexistência de géneros totalmente fixos e favorece o aparecimento do romance como ‘um espelho transportado por uma estrada’, no entre tragédia e comédia, reflecte um espírito que se traduzirá em múltiplos ingredientes como o apareci mento de personagens ambíguos as palmeiras, é a esperança rubra e seus mil amores, o anjo e a pérola, a veste branca dos 10 e contraditórios ou cenários afastados dos ideais clássicos . A definição que Alfred de Musset dá de Romantismo justifica claramente e reflexão sobre a problemática do género literário e sobre a pertinência, ou a ausência dela, da atribuição ao romance plays it – recognizing it, certainly, but also reading its tactics, its strategies, and its ceremonial place’ . outras formas de compreensão e descrição . O Romantismo, fruto de uma época que se caracteriza por modifi cações fundamentais senhor? Não, não é nem o desprezo pelas unidades, nem a combinação do trágico com o cómico, sem nada no mundo que se possa expressar; em vão tentarão aprisionar a asa da borboleta; a poesia que a colore lhe ficará Uma Obra em Busca de um Género 133 género seja antes de tudo um modo de compreensão e de interiorização é, por natureza, adverso . O aparecimento do drama, mais flexível e natural do que a divisão antiga e dicotómica histórico de um género autónomo . Um pequeno e, necessariamente lacunar, excurso sobre as sucessivas transgressões ou modificações que cada Freadman (1994), p . 63: ‘Using a text is primarily a matter of understanding its genre and the way it de regras que lhe são inerentes, como afirma Anne Freadman . 10 As considerações anteriores têm, inevitavelmente, consequências na concepção
 
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Maria de Fátima Marinho 134 salgueiros; oh, que bela coisa meu senhor! É o infinito e a estrela, o cálido, algum, fazer a história do género literário, mas tão só compreender como o romance histórico, objecto principal do nosso estudo, Apesar de algum exagero, ou melhor, de um tom que parece excluir qualquer caracterização apoiada científica e filosoficamente, a verdade peço que a não julguem pelas leis que regem, ou devem reger, essa composição de forma e índole nova;’ sans rythme et sans rime, assez souple et assez heurtée pour s’adapter aux mouvements lyriques de l’âme, aux ondulations de exteriores ao texto . Mais moderna parece já ser, entre outras, a atitude de Charles Baudelaire, quando, na Introdução a o nu ao vivo, o comprimido, o cingido, o impetuoso’ (Musset, trad . Lobo, p . 152 . ) . la rêverie, aux soubressauts de la conscience? ’ (Baudelaire, 1968, p . 146) Depois destas tentativas, ainda de certo modo Petits Poèmes en Prose , anseia por uma escrita que anule a diferença, até então inconciliável, entre poesia e prosa: o quebrado, o despertado, e contudo, ao mesmo tempo, o cheio e o redondo, o diametral, o piramidal, o oriental, se pode ou não assumir como género autónomo em relação ao seu parente mais próximo – o romance tout court tradição literária, vão também abordar a problemática dos géneros, demonstrando, frequentemente, a inoperância dos mesmos . Não pretendemos, de modo de discurso . Garrett, em Memória ao Conservatório Real , ainda, e apesar de colocar o seu Frei Luís de . 11 Garrett (1966), p . 1083: ‘Contento me para a minha obra com o título modesto de drama; só tímidas e audaciosas do século XIX, as vanguardas do início de novecentos, no propósito de modificar, subverter e destruir a ‘ Quel est celui de nous qui n’a pas, dans ses jours d’ambition, rêvé le miracle d’une prose poétique, musicale é que a postura que possibilita tal definição deverá repudiar uma normativização imposta e independente da especificidade dos vários tipos Sousa sob a designação de drama, fala nas regras que o caracterizam, 11 não conseguindo afastar se radicalmente de ditames
 
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aceitando à partida que qualquer um destes discursos se constitui como uma narrativa e que esta é a única forma textualização, não se devendo estranhar afirmações que apontem na direcção de uma factualidade que se oporia à ficcionalidade do romance de estruturar a realidade . 12 Lorenzo Bonoli, num artigo intitulado ‘ Ecritures de la Réalité ’ considera que o par une même ambition: celle de fournir une représentation de la réalité ’ . 14 Bonoli (2004), p . 25: texto científico factual e o texto literário realista se assemelham, dado que ambos pretendem fornecer uma representação da realidade, 13 . Others argue that narative constitutes reality . ’ 13 Cf . Bonoli (2004), p . 19: ‘Cet article propose embora se afastem também, na medida em que o primeiro se encontra irremediavelmente submetido a um objecto extra textual que texte scientifique: le premier – qui le rapproche du texte réaliste – est un mouvement de construction de configurations compréhensibles . 12 Cf . Hellekson (2001), p . 23: ‘Many critics argue that narrative is a way to structure reality et reconnaissables, assurant l’intégration d’une nouveauté dans le bagage de connaissances déjà établies . Et le second – qui l’éloigne também não parece fácil a distinção entre os vários modos de contar . Citando alguns exemplos ao acaso, poderemos referir ténues, os estudiosos sentem, frequentemente, a necessidade de apelar para uma realidade, que sabemos fugidia e inexistente sem a respectiva par contre du texte réaliste – est un mouvement de soumission de ce travail de construction textuel à un objet condiciona, como veremos, as suas características, acabando por aproximá lo da narrativa fictícia . Porque as fronteiras, por vezes, são une réflexion, à la fois sémiotique et épistémologique, sur le fonctionnement de deux genres de texte – le texte littéraire Uma Obra em Busca de um Género 135 No âmbito da narratividade, e antes de consagrarmos atenção especial ao romance, ‘L’exigence de prendre en considération ces deux pro positions nous amène à distinguer deux mouvements intervenant dans le fonctionnement du réaliste et le texte scientifique factuel – qui, tout en étant le résultat de pratiques d’écriture différentes, se trouvent réunis exta textuel préexistant et indépendant’ . as diferenças entre o texto literário realista (pretensamente baseado num contrato mimético) e o científico, a crónica ou o diário, lhe pré existe . 14 Esta inevitabilidade da narrativização, impedindo que o discurso pretensamente objectivo da História lhe possa escapar,
 
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“signos de existencia” de una colectividad’ . como o diário, que deveria, em princípio, ser a narração do quotidiano . Os Guardas Chuvas Cintilantes (Teolinda Gersão), que al transformar la vida en texto, no interpreta, sino introduce los acontecimientos en la memoria, los que son los verdaderos artigo deve ser factual, isto é, objectivo e informativo’ (Miguéis, 1996, p . 84) e ‘Tema querido de muita crónica é, também, o episódio quotidiano ’ (Venâncio, 2004, p . 7) . Esta insistência no sentido ou no factual tem mesma linha se situam José Rodrigues Miguéis ou Fernando Venâncio quando afirmam, respectivamente, ‘Quanto a mim, para ser bom, um apresenta como subtítulo Diário, tem logo uma anomalia fundamental: nas indicações que antecedem os fragmentos, apenas se indicam os dias que seja no intuito de destruir o sentido para o reconstruir com novas potencialidades . Évanghélia Stead, falando das gravuras subtítulo, escrevendo: ‘Não é um diário, disse o crítico, porque não é um registo do que sucedeu cada dia . Maria de Fátima Marinho 136 É o que faz Fernando Aínsa, num ensaio sobre o romance histórico, Reescribir el Pasado da semana e do mês, sem haver qualquer referência ao ano e ao mês (apenas aos dias do mesmo) . também o seu reverso, não só ao nível do romance, como analisaremos em seguida, mas também em outros géneros afins , quando separa a crónica do romance, porque esta não interpreta, antes introduz os acontecimentos na memória . 15 Na A própria autora, assumindo o papel de crítica literária, rejeita a inclusão do texto no género a que apela no detectar, os géneros são de natureza periclitante, até por que estão constantemente a ser negados pelos seus próprio cultores, nem Carecendo portanto da característica determinante de um género ou subgénero em que uma obra pretende situar se, a referida obra textuais como género literário, constata que, pela sua natureza excessiva, 15 Cf . Aínsa (2003), p . 139: ‘El Cronista, está à partida excluída da forma específica em que declara incluir se’ (Gersão, 1984, p . 20) . Como podemos
 
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apresentavam como passíveis de grandes alterações . As vanguardas novecentistas, e entre elas, o Surrealismo, deixaram de acreditar no romance, textuelle, texte par nature excessif, poussant le sens vers la ruine’ . 17 Para uma análise teórica do conto, cf dialógico, 18 faremos um pequeno desvio para podermos perceber os antecedentes que condicionaram irremediavel mente características que, aparentemente, não se na subversão dos géneros . Um texto como Apenas uma Narrativa (1942) de António Pedro, conjunto de textos surrealistas automáticos, Uma Obra em Busca de um Género 137 este tipo de texto conduz necessariamente a uma destruição do sentido, canonicamente quinze páginas, todas elas com uma gravura e uma legenda, onde esta nem sempre tem uma relação muito evidente com considerado . 16 No intuito de demonstrar a falência do romance (e deixamos de lado, propositadamente, o conto, para não aquela, é um exemplo da ausência pretendida de narratividade . A consciência de que o termo romance não corresponde sempre dado que não obedecem a nenhum dos requisitos tidos como fundamentais . Em Portugal, embora o movimento surrealista surja com novel’ . 19 Cf . Chénieux (1983), p . 17: ‘On va découvrir que le roman n’est pas seulement exclu dado que este encerraria a problemática do real e da sua representação, uma dos principais pedras de toque do movimento à mesma 16 Cf . Stead (2002), p . 128: ‘La littérature aura relevé le défi en créant la gravure . Goulart (2003) . 18 Cf . Kuester (1992), 13: ‘[ ... ] the dialogic genre par excellence , the ou A Ampola Miraculosa de Alexandre O’Neill, directamente apelidada de romance, não correspondem minimamente à convenção . Este último, de alongar a presente exposi ção), 17 género que parecia deter uma fulcral importância no século XIX, até pelo seu carácter um atraso de vinte anos em relação ao resto da Europa, há características que se mantêm, nomeadamente as que apostam la question du jugement de réalité et du jugement de possibilité, tous deux au coeur de la recherche surréaliste’ . par André Breton comme bouc émissaire du péché de littérature; il est le lieu d’un débat constant, car il engage liderado por André Breton . 19 E a prova é que os chamados romances se afastam consideravelmente dos seus antecessores,
 
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de costumes, feminista, policial, fantástico, maravilhoso, experimental, de aprendizagem ou histórico . Para o presente ensaio, interessa nos o romance (1996), p . 63: ‘Le genre est ainsi écartelé entre deux postulations: s’affirmer comme fiction, ou se nier plus ou of particular individuals or groups’ . para a representação do real . 22 No entanto, a verdade é que esta dicotomia é cada vez menos absoluta, no sopro do silêncio eterno . É um roubo à Eternidade, ( ... )’, porque ela ‘começa quando já não (1996), p . 10: ‘Tirant sa raison d’être de l’effacement d’une frontière gardée avec vigilance et mêlant la relation d’événements levará a problematizar a classificação enquanto distintivo genérico . Michel Vanoosthuyse fala de uma ligação contra a natureza, dado que análise sobre estes dois discursos, comenta que ‘A História [se] destina a comunicar o que o tempo afastou de nós dada a componente ideológica, irremediavelmente presente . 23 Agustina Bessa Luís (2004, pp . 351 e 352), sempre arguta na avérés et répertoriés à des énoncés non référentialisables, le roman historique est de longue date tenu pour le fruit d’un moins comme tel pour s’écrire à l’abri du “réel”, c’est à dire des modèles en place’ . 23 Cf . d’abord et avant tout un terme accolé à des époques diverses à des textes divers’ . 21 Cf . Vanoosthuyse houver resquícios de egoísmo na maneira como 20 Cf . Schaeffer (1989), p . 65: ‘Le terme roman, par exemple, do momento em que a História tomou consciência da impossibilidade de produzir um discurso único e definitivo sobre acontecimentos reais, accouplement contre nature ou, à tout le moins, d’un ménage écartelé entre des désirs centrifuges’ . 22 Cf . Vanoosthuyse os interesses do romance e da História deveriam à partida ser diferentes, 21 tendendo um para a ficção e outro teoricamente, pretendem explicitar o tipo de romance, criando subgéneros, conduz ao aparecimento de variados modos de conceber a narrativa: romance n’est pas un concept théorique correspondant à une définition nominale acceptée par l’ensemble des théoriciens littéraires de notre époque, mais Ommundsen (1993), p . 53: ‘history is interpretation, the past and the present are ideologically constructed according to the interests Maria de Fátima Marinho 138 realidade 20 e de que, mesmo sob designação idêntica, se podem apor rótulos diversos que, histórico, embora estejamos conscientes de que esta designação uniforme não corresponde a um tipo de textos semelhantes, o que nos
 
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certo também vejo, como todos hão de ver, que não é um romance histórico, ao menos conforme o creou o modelo e a desesperação de todos os romancistas, o immortal Scott’ (Herculano, s/d, p . 295) . A indecisão que Uma Obra em Busca de um Género 139 interpretamos as acções distantes e passadas . E acaba quando a literatura des événements, une histoire honteuse ’: Balzac, 1966, p . 602) está já a explicitar o logro que o discurso a noção desse facto e a ele alude directamente em textos como O Bispo Negro , em passagens de O toma o seu lugar, como usurpação talvez ( ... )’ . Esta percepção que leva autores como Michel Host (2004, 138) quando separa a ‘história que se conta na instrução primária’ de uma outra muito mais importante, não será de romântico, apesar de, e paralelamente, haver alguma ingenuidade na crença da possibilidade de reconstituição fidedigna . O próprio Herculano tem a deux Histoires: l’Histoire officielle, menteuse qu’on enseigne, l’Histoire ad usum delphini, puis l’Histoire secrète, où sont les véritables causes Bobo ou nas Notas a Eurico o Presbítero : ‘Sou eu o primeiro que não sei classificar este livro; nem se nota nas linhas acima transcritas fragiliza uma tentativa de classificação unívoca, até por que, e sobretudo na pósmodernidade, é isso me aflige demasiado . Sem ambicionar para ele a qualificação de poema em prosa – que não é por Rui Estrada (2004, p . 247), que ‘A história é assim o limite da literatura . Se o padre espanhol de Illusions Perdues de Balzac, ao referir a existência de duas Histórias (‘ Il y p . 356)a afirmar que ‘ l’histoire n’est que fiction et roman ’ e que ‘ L’Histoire, à mon sens, muito nítida a interferência entre os vários tipos de discurso e a relativização de toda e qualquer noção de objectividade histórico pode encerrar, tal como mais tarde fará Ruben A . , em A Torre da Barbela (1966, p . estranhar que Michel Host (2004, p . 356) escreva que o romance é a única história credível, mas não verdadeira est le roman de l’Histoire, ou son pré roman ’, já existia, mesmo se tacitamente, nos autores do romance histórico . Demasiado próximas, as relações entre História e Literatura têm suscitado as mais diversas interpretações, podendo se até afirmar, com
 
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reflecte sobre o género em causa, levantando problemas interessantes que se relacionam com a inclusão numa catalogação fixa: ‘O com outros discursos, e, por outro, com transformações que fazem vacilar a classificação pré definida . Um dos discursos mais próximos poderá ser o da biografia . Desde o classicismo que a biografia e a História pertenciam a domínios semelhantes obscuros ou mais convencionalmente escamoteados . Marguerite Yourcenar, em meados do século, nos ‘Apontamentos sobre as Memórias de Adriano ’ hermenêuticas inerentes aos textos literários’ . Perante estas considerações, torna se claro que, se a definição de romance enquanto género mais dificuldades em se estabelecer coerentemente . Qualquer tipologia esbarra com inúmeros problemas decorrentes de, por um lado, perigosas afinidades História e a biografia eram, por vezes, pouco significativas . Os romances de Antero de Figueiredo, por exemplo, quase não de novecentos onde abundam as biografias de carácter encomiástico destinadas a exaltar as virtudes dos antepassados, as diferenças entre a estava longe de ser uma classificação baseada em critérios uniformes, o romance histórico (género ou subgénero, pouco importa) encontra ainda Maria de Fátima Marinho 140 [ ... ] [e] que as âncoras interpretativas da história estão sujeitas às mesmas dificuldades 2004, p . 261), dado que Plutarco acreditava que o relato de vidas exemplares seria um exemplo para os vindouros: . Ana Maria Guedes Ferreira, num curioso estudo sobre as Vitae Parallelae de Plutarco, escreve que ‘no âmbito do relato histórico, eram invocados dados da vida de um indivíduo sempre que isso permitisse compreender melhor os acontecimentos descritos’ (Guedes Ferreira, ‘Ora este interesse filosófico moral da biografia em geral e das Vidas Paralelas em particular é provavelmente a principal diferença entre a historiografia e o discurso biográfico’ (Guedes Ferreira , 2004, p . 263) . No romance histórico do início possuem efabulação e as personagens raramente entram em diálogo . À medida que o século XX se aproxima do fim, a biografia assume características próprias, passando por uma interpre tação criativa da vida das personagens ou, até, recriando aspectos mais
 
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Uma Obra em Busca de um Género 141 romance devora hoje todas as formas; é quase forçoso passar por ele ambiguidade do estatuto de certas obras, mas não deixam de as apelidar de romances, dada a importância do enredo inventado Yourcenar, as nossas análises são sempre relativas e fugidias: ‘O que não significa, como se diz exageradamente, que a verdade e à sua representação e na distância temporal entre o tempo da escrita e o do desenrolar da diegese 24 et le genre apprenait à se préserver des travestissements grotesques qui, en discréditant sa fortune, pouvaient le compromettre à tout histórica seja sempre e em tudo inacessível . Sucede com essa verdade o mesmo que com todas as outras: enganamo . 24 As definições de romance histórico têm sido várias, mas, em geral, todas elas assentam no recurso ao real jamais’ . . Este estudo sobre o destino de um homem que se chamou Adriano teria sido uma tragédia no século XVII; esta problemática, defende que a verdade histórica, insinuando se no discurso, preservaria o romance do descrédito a que estaria votado se afasta (ou não) irremediavelmente do romance . Quando Walter Scott começa a tentar recriar o passado, dando uma especial a obra fosse considerada como pertencente ao género em causa . Louis Maigron, no primeiro estudo de fôlego consagrado a Alexandre Herculano e outros, ao sustentarem que o romance histórico ensina mais do que um livro de História, apreendem a escreve biografias várias que se afastam consideravelmente da realidade que julgamos estabelecida, mas sobre a qual, como também diz Marguerite atenção a este em detrimento de qualquer outro elemento, o romance social do século XVIII sofre irremediavelmente uma modificação . . No entanto, em todo o século XIX se pretende salvaguardar alguma verdade que teria forçosamente de existir, para que com outros géneros (será que o são?), vamos debruçar nos sobre o romance histórico e ver em que medida ele teria sido um ensaio na época da Renascença’ (Yourcenar, trad . Lamas, 1981, p . 264) . Agustina Bessa Luís nos mais ou menos ’ (Yourcenar, trad . Lamas, 1981, p . 257) . Deixando agora de lado qualquer relação Cf . Maigron (1912), p . 4: ‘Par là s’insinuait dans le roman un certain respect de la vérité historique,
 
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de vista estritamente linguístico ou de composição narrativa, não há diferenças notáveis a assinalar . Aliás, ainda em pleno século read as historical novels, that is, before they were placed in a relation of continuity and innovation with preceding literary favorável para a intriga em curso (cf . Marinho, 1999, pp . 75 82) . A noção de que, apesar XIX, autores como Mérimée (1865, pp . 79 82) já relativizam essa técnica narrativa de inclusão de personagens históricas e . Wesseling (1991), p . 74: ‘The fact is, however, that it took some time before these works were consciously histórico” . O que aí está são velhos problemas da humanidade que, vindos de há séculos, ainda hoje persistem nos estabelecidas . 25 Mais recentemente, alguns autores tentam dissociar se dos ingredientes usados pelos românticos, sem, contudo, conseguirem fugir ao Maria de Fátima Marinho 142 (cf . Marinho, 1999, pp . 11 14) . No entanto, é discutível se essas características, só por si, podem ser suficientes para a constituição de um género autónomo, na medida em que, do ponto tradicional do género, o mesmo não poderemos afirmar de escritores como Agustina Bessa Luís, Saramago, Mário Cláudio, Helder Macedo ou de reconstituições aparentemente correctas . Camilo Castelo Branco não se coíbe de inventar e modificar o passado, consoante isso era Mário de Carvalho . Tal como escreve Amy Jeanne Elias, os romances históricos pósmodernos desafiam as tradicionais classificações 25 Cf , p . 436), escreve: ‘Não se julgue contudo que com este livro pretendo fazer uma incursão pelo chamado “romance adaptations of historical materials’ . Virginia Woolf ou Absalom, Absalom! de William Faulkner, não fossem considerados romances históricos, uma vez que transgrediam demasiado as regras de tudo, a classificação deveria obedecer a um critério mais ou menos uniforme, faz com que romances como Orlando de mesmos cenários e saltam para outros mais alargados e vastos’ . Se podemos considerar Fernando Campos como um cultor ainda rótulo de que tanto se querem afastar . Fernando Campos, nas Notas a A Casa do Pó (Campos, s/d .
 
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Uma Obra em Busca de um Género 143 genéricas . 26 Se quisermos problematizar ainda mais, não devemos esquecer que, um subgénero da ficção científica que, por sua vez, é um subgénero do fantástico . 27 A par de tais Cristo de Saramago, O Concerto dos Flamengos de Agustina Bessa Luís ou As Batalhas do Caia de Mário Cláudio) é ainda tem cabimento classificar os textos que reflectem sobre um outro tempo ou sobre a intersecção do passado e do nova forma de ficcionalizar o passado (Carvalho, 1994, p . 11) . De igual modo, a inserção do duplo como considerações, devemos ainda contar com afirmações como a advertência de Mário de Carvalho (1994, p . 11) no romance Um século XIX . O processo de ironização paródica que é levado a cabo situa se na linha mais ortodoxa da Se, por um lado, pode haver alguma unidade entre todos eles, por outro, a diferença entre O Prisioneiro da Torre segundo Karen Hellekson, a história alternativa (de que são exemplos, História do Cerco de Lisboa ou O Evangelho Segundo Jesus Deus Passeando pela Brisa da Tarde : ‘Este não é um romance histórico . Tarcisis, ou mais propriamente, o município Velha de Fernando Campos e Vícios e Virtudes de Helder Macedo ou As Naus de Lobo Antunes é maior do o romance dito histórico pode contemplar . Perante uma tão grande diversidade de formas, valeria talvez a pena perguntar se presente sob a designação uniforme de romances históricos . É claro que tal pergunta não é fácil de responder . is a subgenre of the genre of science fiction, which is itself a subgenre of fantastic (that is, not realistic) for lida em relação a um género ideal, que está longe de existir, mesmo se considerarmos só o romance do 27 Cf . Hellekson (2001), p . 3: ‘One important point I wish to stress is that the alternate history que entre estes romances e 26 Cf . Elias (1991), p . 75: ‘How Postmodernist novels challenge generic assumptions’ . literature’ . reduplicação de tempos e personagens ou a representação do passado de modo simbólico corres pondem a outras tantas actualizações que de Fortunata Ara Iulia Tarcisis, nunca existiu’ . A ironia presente nesta Advertência só é possível, na medida em que
 
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povo . No entanto, a presença obsessiva do passado em alguma produção recente pode e deve ser passiva de análise Maria de Fátima Marinho 144 outros que não recorrem ao passado como matéria diegética . Retomando as considerações do início a escrita estrutura o real, independentemente desse real pretender ou não recriar o passado ou a memória colectiva de um cultural, sociológica ou psicológica, contribuindo, simultanea mente, para o conhecimento do romance, mesmo se o objecto sob esta designação não geral . Concluindo, penso que não é fundamental chegar a uma classificação homogénea, mas antes tentar analisar as formas como deste pequeno estudo, vemos que as classificações deverão residir nas semelhanças entre tipos de discurso e na compreensão social e é estável nem coerente . Maria de Fátima Marinho Universidade do Porto actualiza em discursos que sofreram também as modificações de correntes da evolução do género em particular e da literatura em Cláudio ou Helder Macedo, a não ser que, por uma questão metodológica, queiramos estudar o modo como o passado se cultural da linguagem em uso, logo não parece fácil incluir na mesma catalogação os romances de Herculano, Camilo, Saramago, Mário
 
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