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O Género Literário - Norma e Transgressão  190 Seite(n)
The Literary Genre - Norm and Transgression
John Greenfield (ed . )

O Género Literário - Norma e Transgressão
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Ausschnitt aus dem Kapitel: Comédia e Melancolia em Molière: Modulações de um Género no Século XVIII em Portugal
 
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. Bocage 1 Charles de Maguetel de Saint Denis, Senhor de Saint Évremond, libertino e contemporâneo de Molière, notava, numa das suas Maximes, que ‘ c’est aller contre l’intention de la Nature, que de faire notre tourment d’une chose dont mil gritos, Os hipócritas malditos, Os que têm tartárea voz, Ai! Armados contra nós, Extraem de amor delitos . 2 Saint Évremond (Ternois, ed . , 1966), p . 145 . Cf . Guellouz (dir . ), 2000 . a felicidade humana visada pelas leis da Natureza: Estes, Marília, estes são Os males que o Céu nos fez; São Os erros da educação Extraem de amor delitos . [ … ] A Natureza premeia Quem as suas leis adora bom senso, segundo Descartes, em 1 Ed . Cidade (Vol . III, 1977), p . 111s .. ‘Décimas em Glosa elle a voulu faire notre plaisir ’ 2 para, afinal, destacar a irreprimível Razão, sinónimo da Natureza, ou ainda do Comédia e Melancolia em Molière: Modulações de um Género no Século XVIII em Portugal Ao Professor Doutor Laureano Carreira V de Dísticos’ . As glosas referentes a estes dísticos denunciam a hipocrisia moralista e os preconceitos de educação que asfixiam os erros em que crês, Os erros da educação . Por mais que o meu coração E o teu desatem
 
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Cristina Marinho 96 Discours de la Méthode , 3 no combate contra a hipocrisia social e religiosa com que a 5 que em Setecentos se virá a cultivar entre nós do Théâtre de Molière, particularizando as peças em que a p . 7, define ‘la puissance de bie n juger et distinguer le vrai d`avec le faux qui est proprement ce qu`on nomme le bom sens ou la raison’ . Também Boileau (s/d), p . 236, escreverá a Brossette, a Companhia do Santíssimo Sacramento dominaria, então, a França . Sendo que justamente, na obra dramática de Jean Baptiste Poquelin, a antes de Galiano que a distinguirá da bílis natural para, corrompida, a extrair pelo abdómen, 3 De s cartes (s/d), . do pai e do marido . 4 Tal melancolia será acomodada ao gosto portuguez , na ampla leitura e reescrita a Antiguidade, na circularidade ou metáfora, na própria acepção grega de transferência, entre inquietude da alma e indisposição do corpo, . Molière: ‘Le moyen de chasser ce qui fait du plaisir?’ 5 Para além da vasta investigação de Coimbra Martins da Natureza , contrárias aos erros de educação que extraem de amor delitos . 6 A melancolia define se, desde 15 de Junho de 1704, que ‘la raison humaine est celle qu’on appelle le bom sens’ . Sobre a amplitude poder espiritual da palavra ou o da psicofarmacologia na superação da bílis negra . Assim a definira Hipócrates, cinco século significar uma aspiração à liberdade que as personagens femininas intuem e realizam originariamente na recusa da trinitária autoridade de Deus, fundamental de uma libertina poesia portuguesa, como a de Bocage, que, em muitos dos seus melhores lugares, canta as leis melancolia é correlata desse mesmo prazer indissociável da Natureza, mesmo a não humana, importará interrogá la nas suas possibilidades de maladie d`amour estrutura a acção dramática na resolução triunfal do instinto consentido e da felicidade desejada que constituem ainda temática nesta matéria, cf . Ciccia (2003), pp . 385 – 410 (Chapitre II . La réception de la comédie Le medicina e a moral no domínio i m preciso das doenças anímicas até hoje, quando ainda se oscila entre o Mariage Force ) . 6 Sobre a matriz francesa iluminista da posia de Bocage, ver, apesar do esquematismo, Nys (2003) podendo este ser mero reflexo de uma perturbação sem lesão, à semelhança da moderna histeria, introduzindo a ambiguidade entre a da Razão no Age Classique, cf . Zuber, 1997 . 4 Jeanneret (2003), pp . 277 – 296 : 11
 
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figurativas ou a encarnação do mito na acção cénica, a expansão do modelo melancólico ter se á dado entre os certo é que o domínio melancólico se ampliou junto dos sábios e revestiu se de nova natureza através de um atrabilário partilha se na ambivalência de energia preciosa ou de estado maléfico, inscrita em períodos de positividade, outros de prejuízo, outro texto mítico do corpus melancólico, tradicional mente atribuído a Aristóteles, mas na realidade da autoria de um peripatético desconhecido: uma rêverie alimentada pelos sentidos e pela imaginação . Desde a Grécia Antiga, com os seus pressupostos miméticos das artes séculos IV e V da nossa era até à Idade Média, apesar da mediação inventiva da medicina árabe . Se a prostração ou para o delírio . Mais tarde, Robert Burton, em Anatomy of Melancholy viria a realizar um compêndio da antiga doutrina sobre o tema, uma antologia sinóptica de reflexões, intuições, também de contestações sobre a matéria: um terço oferece se a associação da melancolia ao génio humano, abrindo alas à moderna Psicologia . A história do imagi nário do livro de Burton debruça se sobre a melancolia amorosa e consequentes ciúme, doenças da alma apaixonada e do corpo da doutrina médica e ética da compleição, patologia e terapêutica atrabilária, num amplo quadro de loucura com variações matizadas de respondendo aos seus tormentos; um décimo desta obra trata da melancolia religiosa e suas prostrações doentias, ocupando se o restante importará na dupla direcção da substância atrabilária que não só constitui princípio de modelo de interpretação científica, como substracto de delírios obsessivos, até inspirados, mórbidos ou dados à fantasia . A investigação sobre a história das representações desta antiga melancolia Modulações de um Género 97 impedindo a sua chegada ao cérebro, reduto último do espírito que quase se precipita para dinamismo das representações . Na sua negatividade, radica numa podendo o humor negro ser encarado como fonte de criatividade, território arriscado de perturbação, mas igualmente fonte de vivacidade e a continuidade humanista garantiu o fluxo até à forte vaga editorial barroca de que Anatomy of Melancholy é corolário, o
 
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serão os hipocondríacos, os avarentos, os ciumentos, os solitários, os tímidos, carregam em si a potencialidade de um percurso neurótico da medicina árabe esboçará o horizonte mórbido da ‘maladie d’amour’ na sua depressão desesperada e até suicida . Os melancólicos de l`essence et guérison de l`amour, ou de la mélancolie érotique , refundido em 1623 com o título De la mélancoliques ; em 1603, de Jourdain Guibelet, o Discours philosophique de l’Humeur mélancolique ; em 1610, de Jacques Ferrand, Traité seu Fidèle examen dês prétendues possédées de Chinon, em 1634, e de Pierre Yvelin, Fidèle examen de la o, por outro lado, para o universo desmesurado das obsessões . Este ‘banho do diabo’, assim se designará a melancolia maladie d’amour ou mélancolie érotique . As vagas de feitiçaria e de possessão que agitam a Europa de então são moda as aflições negras com as seguintes edições, só em França: em 1597, de André du Laurens, Discours des maladies Cristina Marinho 98 estrutura binária que, por um lado, asfixia o espírito na profunda experiênci a interior de angústia, lançando França de Luís XIII e a da menoridade de Luís XIV foram marcadas por tais epidemias como as de Loudun, , antes de Claude Quillet propor, sempre no contexto em que a hipótese melancólica é amplamente solicitada ou combatida, o de La Mesnardière, publicado em resposta a Duncan . Jean Bodin falará de uma Démonomanie des sorciers (1580), em 1580, que o Renascimento procedeu dos textos antigos que louvavam ou reprovavam o carácter atrabilário, o período barroco pôs fervorosamente na de Henri Boguet, Discours exécrable des sorciers , de 1603, ou de Martin del Rio, Disquisionum magicarum librio sex, 1608 Chinon ou Louviers . 7 7 Cf . , entre outros, os seguintes opúsculos de quase sempre autores médicos: o na era cristã, será responsável pela loucura dos sábios e dos monges, pelos furores dos feiticeiros, e modulado pela contribuição que Molière saberá explorar na sua criação (cf . Dandrey, 2003) . Depois da reconsideração filológica e até esotérica a Discours de la possession d e s religieuses ursulines de Loudun (1634) de Marc Duncan, defendendo, na esteira de De explicadas ora pela influência de Satã, ora pela bílis de vaporosos delírios que controla os espíritos supostamente alterados:com efeito, a e o debate será enriquecido pelas publicações de Pierre Le Loyer, Quatre livres d e s spectres, 1586 , e savoir si elle est la cause d e s effets que l`on remarque dans les possédées de Loudun (1635) d`Hyppolite Praestigiis daemonum (1536) de Jean Wier, uma interpretação melancólica do furor demoníaco das monjas; e o Traité de la mélancolie,
 
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Giordano Bruno, em Itália, na Espanha um Cervantes, mas também Lope de Ve g a . Em Inglaterra o domínio Modulações de um Género 99 Na Grã Bretanha, antes da Anatomy de Burton já referida, surgira em 1586 o Treatise de finais do século XVI e do início do século XVII ser melancólico era chic . Já no século XV, of Melancholy de Timothy Bright, em Itália, o De Melancholia tractatus perfectissimus de Ercole Sassonia, em 1595, e mais tarde da ‘Elizabethan malady’ produzirá um John Webster e um Ben Jonson, Hamlet, Romeu e Milton, o fantástico visionário de paraísos depois do optimismo humanista, uma desordem ilustrada em múltiplos autores: um Dante, um Cavalcanti, um Da Vinci, um Ariosto, Tasso, A corte de Rudolfo II cultivava a inflexão esotérica de sabor erudito na melancolia, a corte dos últimos Valois, em poética de um Théophile de Vau, depois das tenebrosas Les Tragiques de Agrippa d`Aubigné . Poetas houve que cantaram a desde os desmandos de um Desmarets de Saint Sorlin até à quimera atrabilária de Alceste . Muitos se possession des o Quadrpartium melancholicum , em 1645, de Caspare Marcucci; em Espanha, em 1587, o De Melancholia de Luís de Mercadoou a Digntio et cura affectuum melancholicorum de Alfonso Ponce de Santa Cruz , podendo se até dizer que na Europa religieuses de Louviers, em 1643 . Toda esta informação é ampliada exaustivamente no magistral estudo de Dandrey (1998) . o infante português Dom Duarte escrevera um diário da sua dolente melancolia e as cortes de Isabel I em Londres, lutando contra os efeitos doentios da clausura ou dos Bourbon, a emergência da melancolia no pastoril, no âge galant, em perdidos e recuperados . Patrick Dandrey sublinhará no contexto francês, os discípulos de Montaigne, ou de François de Sales , solidão em obras colectivas editadas por Charles de Sercy, quando nos palcos se representava a loucura dilacerante, as paixões paradoxais, como a de Filipe II ou de Filipe III em Madrid, confinavam se a uma austeridade ostentada em pose . Paris, contrastava o cerimonial dos bailes grandiosos no luto criminoso e na doença, sendo que a Europa vem a conhecer, Charles Sorel, nos suspiros da Madame de Clèves segundo Madame de Lafayette, no Page disgracié de Tristan L`Hermite, a deriva
 
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Inglaterra pós isabelina, reinventa se se o princípio tradicional da composição quadripartida do sangue que, desde a Antiguidade, se dividia autor . pp . 134 255 . 9 Cf . Gallardo (1996), onde a chave de uma sensibilidade melancólica é evidenciada pelo entre artes e conhecimentos, por excelência na arte da representação: com um Shakespeare, um Lope de Veja, um Calderón de 8 La Mothe Le Vayer, ou o próprio Molière, reputado de hipocondríaco, nele há de estruturar o seu Misantropo com la Barca, um Marlowe, a renovação da tragédia humanista sob o signo do horror inspirado por Séneca, ou do sublime Cristina Marinho 100 ocuparão da hipótese humoral e procurarão aprofundar uma espécie de doutrina do temperamento atrabilário, como La Rochefoucauld, imaginário de uma bílis negra, ao mesmo tempo que descobertas pontuais, mas deveras importantes, vão desmoronando o monumento escolástico da sanguinis ad Johannem Riolanum filium , sugerindo se se mesmo a dúvida sobre a natureza, génese e existência do humor negro natural e da atrabílis degenerada, entre diversos aspectos discutidos que a revolução copérnica irá evidenciar até à desgraça do fisiologia e da anatomia . Daí que os últimos trinta anos do século XVI e os trinta primeiros do séc cartesianismo progressivo visava combater no sentido de destronar um poder espanhol do pessimismo fatalista e dos ardores apaixonados . Na em bílis, atrabílis, fleuma e humor sanguínio propriamente dito, a partir da publicação em 1649 de Exercitationes duae de circulatione . XVII constituam um apogeu do modelo melancólico, erigindo se em período de oposições, revoluções e radicalismos, indispensável clarificação de que Sófocles exprime, o gosto trágico cómico da 8 Lafond (dir . , 1992) . No referente a La Rochefoucauld, que o epicurismo se associa ao s prazeres lúgubres, inscreve se em todo um imaginário sombrio que uma França de princípios, mas, na área que nos ocupa, é a riqueza do primeiro quartel do século XVII que produzirá a conivência que Boileau se identificará no modelo perfeito de Alceste . La Fontaine, 9 cuja melancolia paira sobre uma obra em
 
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do novíssimo fôlego corneilliano na crítica francesa que descobre o Barroco, temos conhecimento que Christian Biet, eminente Professor de Paris diacrónica de uma tradição que Molière procurará singularizar, sintetizando . que, para além do mais historicista estudo de Raynaud consagrado aos Médecins au temps de Molière (cf . Raynaud, 1862) falaciosos, convocados por ardil ou por pura imaginação desequilibrada, numa coerência de formas e de conteúdos assinalável . Na verdade, França . 11 Destaco, nesta obra de Dandrey, o capítulo dedicado a ‘Une dramaturgie de la mélancolie’ para a definição ou outras obras precisamente biografistas inflectindo sobre a própria doença do comediógrafo, urgia na crítica do séc . XX . uma psicologia da imaginação delirante, tal produção trágica dialoga com um tempo de florescimento do teatro no interior do próprio notável penetração moral até à exploração da loucura em Le Malade Imaginaire . Inscrita nos ambientes de uns Visionnaires de ou múltiplos desgostos metafísicos que informarão a génese dramática, ao ponto de a compreensão deste drama depender da restituição correcta Saint Sorlin ou de um L`Hôpital des fous de Beys, mas superando já a antiga antropologia atrabilária em direcção a X, desenvolve ampla investigação sobre a tragédia sangrenta de finais do séc . XVI, inícios do séc . XVII, em imaginário da melancolia, desdobrado não só na doença atrabilária, mas sobretudo na inspiração poética, na meditação penetrante, no rendilhado lírico a magistral thèse d`état de Dandrey (1998), 11 eminente classicista de Paris IV, veio preencher uma lacuna de análise sistemática reconhecidamente uma arte da medicina e da doença, sendo que aí os médicos podem ser verdadeiros ou falsos, enganados ou Modulações de um Género 101 tragicomédia à la Luís XIII 10 entre fúrias e terrores, e a tragédia corneliana, mais tarde a de Racine, a dramaturgia mágica de um Rotrou, época que recuperará a comédia e que Molière redescobrirá em dado que o 10 Para além da obra fundamental de Forestier (2003), sobretudo no capítulo ‘VII Dramaturgies des Passions’, expressão dos ecos que o articulam com tal universo atrabilário ou mais vagamente melancólico . Ora, o Teatro de Molière é Dandrey sublinhará a importância de investigar doentes e médicos em relação, mais do que separadamente conforme sempre se procedeu criticamente,
 
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primórdios da carreira provincial do jovem dramaturgo, anterior à sua fixação em Paris em 1659, até à maturidade da última irreal que seja a mistificação cómica, a comédia transporta o substracto de verosimilhança que releva do conhecimento real, ainda que sentido, impostura cínica . De facto, é a falsa doença, tal como a medicina cómica a evoca, a explica, a dar conta, pelo contrário, da relação particular estabelecida entre estes sujeitos com o imaginário cómico e antropológico . Por muito mal curadas por médicos tão sérios, quanto ridículos . Importará afastar abordagens centradas na vida doentia do autor, na tradição meramente alusivo da sua patologia e da sua terapêutica . Molière herdou seguramente a imagem do médico de uma tradição Cristina Marinho 102 seu estatuto é complementar, indissociáveis na mistificação ou de uma falácia satírica, ou de uma quimera sem percurso de ocorrência da mesma temática que culminaria na admirável realização de Le Malade Imaginaire , obra derradeira dialogando com satírica, mesmo da farsa, ainda que vivificada e sobretudo consolidada em unidade dramática pelo modelo da medicina antiga, num longo encarnação de Molière . Argan constitui, portanto, o ponto de chegada dramático, resultado de uma germinação progressiva a investigar, onde Jean Baptiste Poquelin deverá ser secundarizada, mesmo na histórica relação de médicos e de doentes na época clássica, para se da medicina, na sua vertente paradoxal, cf . , ainda, a obra crucial de Dandrey (1997) . fársico e a máscara cómica; forçoso será considerar as etapas intermediárias de passagens precisas do Dom Juan versando a medicina, se combinam caricatura da medicina e o cómico da falsa doença na edificação de um carácter que transcende o tipo por falsos doentes ou gente sã que se crê doente ou quer ser vista como padecendo, são falsamente interpretadas e a sua primeira, Le Médecin volant , desde a doença fingida à doença imaginada, amplo lastro de criação desde os 12 toda a intriga de L’Amour Médecin , como a de Le Médecin malgré lui, 12 A propósito de elogio explora, que se nos afigura fundamental, num âmbito em que as doenças para produzir o riso, cujos sintomas são imitados cómica do médico e do doente de teatro anterior a Molière . A realidade sociológica que informa a obra de
 
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discreta em Dom Juan, mais rica em L’Amour médecin , 13 pletórica em Pourceaugnac , complexi fica se e refina Molière até uma meditação sobre a própria ilusão que se divorcia da realidade, como a natureza se separará da imaginação, les éclats du rire suscité de cette manière ’ (Dandrey, 1998, pp . XVIIIs . ) . A evidência de . Mckenna (2005) . a uma filiação dramática comum aos dramaturgos europeus dos séculos XVI e XVII, até atingir uma tradição pessoal da comédia elementos patentes no ridículo da medicina e na doença para rir . O diálogo entre duas formas dramáticas e psicológicas . A documentação erudita, por assim dizer, revelar se á sucinta em Le Médecin volant e Le Médecin malgré lui, particular poética do ridículo, ‘ porteuse d`une vision globale de l`homme et du monde perçus comme sujets d`hilarité, que fécondent que não necessariamente consciente, de uma tradição molieresca da extravagância perseguida pela doença e pela medicina, partindo da superação prolongada maiores contribuíram para estruturar uma antropologia dramática de Molière e sua reflexão sobre a natureza, imaginário e ridículo (cf . Antony Mckenna virá a considerar esta comédia, até hoje pouco valorizada, como peça chave da criação de Molière . Cf Modulações de um Género 103 incluindo o primeiro e segundo actos de Monsieur de Pourceaugnac, no sentido do desenho, ainda se em Le Malade Imaginaire no espantoso equilíbrio da sátira muito pensada da medicina e a fantasia da falsa doença e genial de uma simples farsa inspirada em grande parte num original italiano, através de uma autonomia crescente em relação Dandrey, 1993, p . p . 351) no seu percurso criador, em dicotomia axial fundada, por um lado, sobre 13 que é na vida, mais do que no palco, que os médicos representam com máscaras, assim como alguns doentes, incon s cientes muitos de nós quanto a um corpo que entregamos às loucuras da medicina, desenvolve se na comédia de ainda nota Dandrey (1993) ao propor a ultrapassagem da máscara grotesca do actor deformando a realidade no sentido de uma estruturam reciprocamente, numa eclosão do ridículo propriamente molièresco emergente dos efeitos gratuitos e sentidos decorrentes do próprio riso, como admiravelmente . Aqui se resolveria a reciprocidade perfeita dos ridículos, o da medicina imaginária e o da doença imaginária que se
 
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o hilariante da situação – como médico que miracula pacientes já desenganados ou mesmo falecidos, sendo que Lucinde se encontra Desmascarado, Sganarelle inventa a identidade de irmão gémeo do doutor, na alternância cómica da respeitabilidade médica e da patetice servil é recuperado no Acto IIIº, numa única cena do Dom Juan ou l`Invité de pierre , em troca vestimentária do redescoberto no século XVIII por Jean Baptiste Rousseau, é considerado tradicionalmente peça de repertório e da autoria de Molière, na loucuras dos tolos, précieuses e coquettes , fidalgos aprendizes, galantes envelhecidos, depois, nas obsessões de adultério, dinheiro, devoção, ambição, saber, que, por sua vez, se desmistifica no rapto da pretendida, perdoada pelo regresso dos filhos pródigos . Este travestissement médico grande aristocrata com o desprezível criado, evocador lucreciano, conforme lembrará Bloch (2000, pp . 60 66) dos efeitos terapêuticos do fingindo a doença para permitir a entrada de Sganarelle, falso médico, realmente valet do seu amado pretendente, para desenvolver o evidência da depuração de linhas de construção dramática que convergem, em primeiro lugar, no recurso à máscara dupla de Lucile religioso . Em 1666, três actos inteiros de Le Médecin malgré lui suscitam ainda um outro Sganarelle, vítima do rancor tabaco, mas incapaz de divagar consistentemente sobre uma ciência que o amo estabelece como impostura, extrapolada escandalosamente para o plano muda por amor e acolherá com o falso médico o seu verdadeiro apaixonado, entretanto cúmplice dele pelo dinheiro mais de vontade absoluta de perfeição ou felicidade que diversos charlatães prometem, ora cínicos, ora simplórios . Le Médecin volant , Cristina Marinho 104 Mascarille, o sonhador e, por outro lado, sobre Sganarelle, primário e teimoso, perfis subsequentemente adensados nas, primeiro, combate contra a autoridade paterna, intratável, e, depois, no registo burlesco do falso sábio confrontado com o verdadeiro pedante . de uma esposa revoltada que engendra o estratagema de o indicar, sem ele o poder saber – e aí residirá convergindo ambas as direcções num tipo cómico muito próprio do Teatro de Molière: o fâcheux correspondendo ao trágico quadro humano
 
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igualmente o breve impromptu intitulado L’Amour médecin , montado um ano antes para satisfação de mais um capricho régio, trama pela fuga e regresso dos amantes logo perdoados, à semelhança de Le Médecin volant , na superação da estética da cega autoridade paterna, por sua vez fintada por uma autêntica terapia ‘psicodramática’ de falsas núpcias que resultam afinal verdadeiras sem de ingredientes arquetípicos sempre redistribuídos, de resto, num jogo da maior importância coreográfica, entre o canto e a dança . italiano e as desventuras do médico à força da tradição francesa . 14 Retoma do arquétipo do médecin volant é trama desdobrada em peripécias de frouxa intriga relevando da dramaturgia cómica, ou com mais precisão fársica, em crucial dosagem relativa estudará Jean Charles Darmon (1998; cf . Duchêne, 2004) . Paralelamente, em 1669, Monsieur de Pourceaugnac redispõe o quadro de um pai obtuso que por dinheiro prefere entregar a bela Julie a um grotesco noivo, no lugar do galante Eraste, cómica de um pai enganado pelo pretendente disfarçado de médico de uma outra Lucinde melancólica e bela, resistente a uma e cruel que asfixiaria as sublimes reivindicações do prazer, em plena emergência neoepicurista do Grand Siècle , como bem o da Biblioteca Pública Municipal do Porto dispõem de um manuscrito, referido como sendo do séc . XIX, que se intitula O Médico à Força , tradução da peça aqui comentada . Modulações de um Género 105 proveitoso do que as bastonadas que lhe valeriam ajustadas denegações . A intriga resolve se que o tirano o pudesse perceber, no triunfo da natureza e do amor, valores supremos no Teatro de Molière: L’Amour Do ponto de vista do texto dramático, tratar se á normalmente de comédias de três actos, no 14 Os Reservados farsa à francesa e numa superação das estratégias de construção dramática à italiana: os gémeos substituem se aqui pelo ardil Médecin ampliará, assim, a arquetípica comédia de disfarce, em que a mistificação dramática arranca a máscara mutiladora do moralismo obstinado feminino em conjugação da força satírica da farsa com a fantasia dell`arte, relevando o paradigma do doente fingido do modelo
 
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inclusivé . Constata se a mesma organização tripartida e musical que assenta nos mesmos ingredientes de proporção, ainda que variadamente . . O ciclo da doença e da medicina por mistificação, próprio da farsa, evolui, portanto, no sentido da pequena comédia tarde reescrita na variedade de outros motivos, em 1665 com L’Amour Médecin , em 1666 em Le Médecin malgré lui Imaginaire , pp . 347 357), por um lado, reflectida numa filosofia da ilusão, sobretudo da autoficção em circuito fechado, últimas consequências de genialidade em Le Malade Imaginaire ; fusão de todos os componentes na perfeição (Bourqui, 1999; Le Malade esboçar os costumes epocais, em lance pictural de inspiração humanista de amores adolescentes, finalmente amplo esforço de harmonização estética que partir de um modelo dramático constante, desde a farsa italiana com o seu desfile de máscaras até Le Malade Imaginaire repensada entre as proezas de Le Médecin volant , outras tantas de Monsieur Pourceaugnac, sátira mais desenvolvida e mais fina de L’Amour Médecin , integrada em Pourceaugnac , intrínseca em Le Malade Imaginaire . A derradeira peça de Molière realiza satírica, culminando, por fim, na comédia de costumes e de carácter, sendo que certo aprofundamento dos enjeux se realiza a por excelência os fundamentos dramáticos da sua composição: estrutura italiana da farsa associada à tradição cómica francesa e espanhola para Cristina Marinho 106 máximo, sempre em prosa . Mesmo tendo Dom Juan cinco actos, o espaço da medicina é aí aspira a uma fusão muito francesa . 15 Essa deriva criatica é reconstituída na sua definição cronológica por Niderst (2004) em L`Amour Médecin do que no meramente jovial Médecin malgré lui, matizada de sarcasmo no Dom Juan , elevada às restringido, pelo que o tema convoca esta medida intermediária entre a farsa e a grande comédia de costumes que Molière por outro lado, herdada da farsa graciosamente recombinada por vezes com a estética do ballet , sugerida já no desenlace adapta a partir do acto único do texto matricial Medico volante , 15 primordialmente em versão de fidelidade escrupulosa, mais
 
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Sérgio de Oliveira ou o Entremez intitulado o Doente Imaginativo e o Medico Astuciozo , ainda o 16 Para além se concentrará a presunção erudita e a venal impostura, dentro da antiga sátira à medicina que sai à época reforçada a origem bouffone . Esta evolução da exigência cómica no sentido de maior verosimilhança promove um simples estrategema inicial de provoca o riso com uma aproximação obscura de um jargão médico por pura bouffonerie , sendo que este, na sua pelo confronto entre os conflitos que esboroavam a cristalizada Faculté e a renovação das ciências, efervescente no meio mundano, fundada esclarece, tema maior da dramaturgia de Molière, desde o escândalo de Tartuffe , que a poesia dramática sustentará numa crucial inclusão alusiva da realidade, resulta cómico pela real inadequação do discurso autêntico e disforme à realidade, nunca deixando de sugerir Modulações de um Género 107 Se Molière inicia este percurso criativo com duas composições mais esquemáticas, Le Médecin volant e a das sábias ridículas e preciosas, a dos oportunistas e falsos devotos, entre outros, sendo que na personagem do médico Biblioteca Pública Municipal do Porto, até ao Novo Entremez intitulado A Doente Amoroza e o Cirurgiam Amante composto por Joaquim no século XVIII português, desde o manuscrito inédito, incertamente setecentista, de Le Médecin malgré lui , existente nos Reservados da bouffonerie?’, importará destacar, ainda, a perspectiva de McKenna (2005), em que a justaposição do medicinal com o teologal é deveras farsa a uma reflexão penetrante sobre a hipocrisia e a cegueira, cuja reciprocidade perigosa a relação entre medicina e doença reforçada . Tal perspectiva é desenvolvida por Thirouin (s/d . ) . Le Médecin malgré lui , cujo cómico assenta numa gesticulação estereotipada e a paródia de termos latinos, por exemplo, para produção de sentidos, para além da primordial máscara fársica . A sátira dos médicos acompanha, de modo integrado, em Molière, da definição de Dandrey (ed . 1998), pp 191 227, em ‘1 . La Science de l’Imposteur . Vraisemblance ou sobre a descoberta da circulação sanguínea e ulterior debate parisiense . 16 Múltiplas são as florescências de melancolia e comédia anexar ao mundo cómico os argumentos teóricos dos médicos e da sua falsa ciência, em L’Amour Médecin já não se
 
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Amor Médico , e que é talvez a primeira versão de uma peça de Molière em Portugal . Trata se de um folheto extremamente raro e do qual conhecemos somente o exemplar existente na BNL/ Reservados’ . 18 Ao autor O Judeu , comparatistas, de grande responsabilidade introdutória, como os de Carreira (2003), 18 cruciais, como o recente de Ciccia da obra essencial O Teatro e a Censura em Portugal na segunda Metade do Século XVIII, Lisboa, s . d manuscritas’, no melhor espírito de cooperação universitária . realmente ofereceu em França, na sequência do crime de Tartuffe , convertendo o debate axial da peça de Molière num teatro de cordel menos redutível ao pendor unitário da investigação académica . Se o óbvio da identidade assumida e do puramente elimina a vitalidade filosófica e a amplitude de sátira sócio religiosa intrínseca ao dramaturgo francês, na projecção hábil do . agradecemos a localização deste folheto na Biblioteca Nacional numa sensível ‘Colecção de entremezes 40 peças impressas e 3 copias ] Não nos foi infelizmente possível datar uma adaptação portuguesa de L`Amour Médecin , publicada com o título de O entremez, conforme viremos a salientar . É, assim, sobejamente conhecida a fortuna do dramaturgo francês clássico entre nós: valiosos estudos, uma peça de Molière, no Portugal de Setecentos . 17 Este último entremez, de que procuraremos fazer em breve uma Cristina Marinho 108 curiosíssimo Entremez o Amor Medico que Laureano Carreira crê poder tratar se da primeira tradução impressa de edição crítica, evidencia a fuga nacional ao espaço perigoso de escândalo teológico político que o texto francês seguramente ofereceria, como de intensamente lido na sua língua, em traduções mais ou menos arcádicas, versões livres e libérrimas, na plural explosão do título reconhecido vem sendo superado, numa nova investigação sobre o século XVIII 17 Carreira (2003), p . 12: ‘[ … (2003), ilustram a multiplicação de títulos óbvios e outros menos óbvios que exprimem a vasta presença de Molière, para além combate da novidade estrangeira que contaminaria a integridade portuguesa, a pretexto de uma metafórica discussão médica . Ora, tal desvio como os inaugurais de Coimbra Martins, tranversais e fundamentais na sua transversalidade como os de Oliveira Barata a propósito de
 
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meu coração E o teu desatem mil gritos, Os hipócritas malditos, Os que têm tartárea voz, Ai! Armados contra nós, bem Manoel Maria o patenteia, no seu drama alegórico A Virtude Laureada , quando a Libertinagem responde ao Génio: 19 dimensão libertina, que Olivier Bloch e Antony Mckenna vêm fazendo emergir na recente crítica francesa do Classicismo, dialoga com o Extraem de amor delitos . (Bocage, ed . Cidade, vol . IV, 1977, pp . 111) . Molière, na sua em glosa de dísticos, pondo a tónica precisamente na repressão exercida sobre as mulheres: Estes, Marília, estes são Os males denúncia de autori dades tirânicas que só asfixiam a natureza, como em sintonia Bocage lembrará em algumas das suas décimas quase sempre omisso e convertendo comédia em entremez, na segunda metade do século XVIII em Portugal, momento civilizacional de solidária progresso clandestino do livre pensamento a que Portugal só muito aparentemente resistiria, no seu véu de pia castidade, como tão de Bocage havia sido aproximada de uma Lettre à Uranie de Voltaire, convocando tal perspectiva uma séria reflexão sobre autoria Mothu (1997) . tradição de estudos, a priori , não aproximaria de Jean Baptiste Poquelin, como até hoje, por exemplo, nunca a Pavorosa o certo é que importará começar igualmente a encarar uma disseminação molièresca na génese de textos dramáticos portugueses que a Refiro me ao lúcido estudo de Machado (2000) . 20 A este título, cf . Benítez (2003) ou McKenna / de Molière que mais se estruturaram na melancolia amorosa circularam abundantemente, sob formas diversas , com o nome de Molière Modulações de um Género 109 literário português, no sentido da percepção da implicitude , 19 muito mais exigente e rara, e originalidade, na especificidade de uma literatura clandestina de matriz libertina . 20 Na verdade, as traduções dramáticas das peças que o Céu nos fez, São os erros em que crês, Os erros da educação . Por mais que o
 
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cumprimento da boa natureza e hão de solidariamente realizá lo . Molière deverá, assim, continuar a ser perseguido no naturalmente Cristina Marinho 110 ‘ Colheste contra mim triunfo inútil: Lísia perdi, mas senhoreio o mundo . ’ (depois de, incompreendida, francês da comédia de costumes, com o próprio património português teatral ao tempo, já de si espanholizante e italiano, em Molière que, em França e só um século mais tarde em Portugal, intuirão o poder mágico do amor no autêntico questões de recepção literária em que Molière se reescreve, precisamente quando se difunde Voltaire e incon fessadamente se aproxima muito . VII) . Afigura se aqui notável o esforço de europeização crítica da escrita bocageana a desenvolver nos próximos anos setecentista hibridismo do género dramático e dos sub géneros, em parti cular recombinando a comum matriz fársica e o movimento . Jean Jacques Rousseau, imperceptível até tarde entre nós . As Eufemias, Erícias, Alziras, cujo nome só poderá sugerir a cumplicidade o fantasma Razão produz, maquina; Eu sou a Natureza: ela não manda Que o gosto oprimas, que os desejos forças; novos, que textos libertinos franceses teceram a magistral criação das Cartas de Olinda a Alzira , 21 como Dubois Fontenelle e D’Arnaud subjazem às singularís simas versões dramáticas de Bocage, num universo sincrético de crono logia intensa e complexa nas (Bocage ed . Cidade, vol . III, 1977, pp . 377s . ) Sabemos hoje, no olhar cruzado de estudos com a natural Alzire de François Marie Arouet, e Olindas, todas elas debatendo se com uma melancolia erótica, e superan do a ou não, na direcção de uma tão ansiada liberdade, reúnem se com as jovens amantes do Teatro de As paixões contentar, não é loucura . Prestar lhes atenção, vontade, assenso, É lei, necessidade e juz dos entes . lhe ter notado:) [ … ] Delícias ao teu seio, ó Lísia, trago, Não cruas opressões, nem agros males, Que tecidos eventualmente in esperados . Deverá, ainda, encontrar se no diálogo entre géneros que 21 Cf . Pires (2004, vol
 
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contaminatio . ’ 23 Remeto para a interessante edição da Critique Les Classiques décoiffés (Roger, dir . , 1998) . Aqui, no ‘Avant Propos’, se remete para a deliciosa paródia do Cid de Corneille que Boileau, Racine e Furetière fizeram o modo como afirmam a sua autonomia criativa, sem porem em causa, de forma alguma, o sistema dos géneros, e Modulações de um Género 111 convergem num filosófico denominador comum que igualmente sintetizará dois séculos de Iluminismo na cada vez só a nova crítica da Literatura Francesa Clássica, nos útimos vinte anos, nos ensinou, cativos de uma concepção poderosamente linear do tempo, na tradicional História Literária: os clássicos franceses estão, hoje, definitivamente despenteados . 23 Cristina A . M . a já aceite dicotomia, em prolongada investigação sobre o nosso Setecentismo, de que entre rigorismo das poéticas neoclássicas 22 (que previsível), afigurar se á essencial no sentido da percepção portuguesa, no século XVIII, do Classicismo francês enquanto monumento fabulosamente irregular . Nessa medida, serão duradouras as suas núpcias com o nosso Barroco persistente que nenhuma poética racionalista poderia impedir de circular em 1664 e publicaram em 65 anonimamente, intitulada Chapelain décoiffé , espantosa sátira ao academismo clássico . mais reconhecida amplitude libertina que os estudos em Literatura Clandestina vão desocultando no menos isolado reino de Lísia . Ultrapassar buscar as emergentes escritas românticas . A Literatura Portuguesa do século XVIII não só compreendeu como exerceu dialecticamente o que apoiando, historicamente, o seu labor, sobre uma vertente da teoria da imitação consagrada pela literatura portuguesa do século XVI, a de Marinho Universidade do Porto 22 Conforme convergentemente conclui Marnoto (2004), a propósito dos Árcades: ‘É dotado de grande fineza uma leitura despo jada de preconceitos revelará em inesperadas facetas de assimetria) e praxis literária há sensível desencontro (afinal, mais
 
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Noëlle Ciccia, Le Théâtre de Molière au Portugal au XVIIIe siècle . Paris, 2003 . Patrick Dandrey, Molière ou l`esthétique Barbosa du Bocage, Opera Omnia . Vols . III / IV . Ed . de Hernâni Cidade . Lisboa, 1977 . Manuel Maria Barbosa du Bocage, Obra Completa . Vol . VII, Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas . Ed . . Paris, 1999 . Laureano Carreira, Uma Adaptação Portuguesa (1771) do Dom Juan de Molière . Lisboa, 2003 . Marie Darmon, Philosophie épicurienne et literature au XVIIe siècle . Paris, 1998 . René Descartes, Discours de la Méthode . Paris, de Daniel Pires . Porto, 2004 . Nicolas Boileau, Art Poétique . Paris, s/d Claude Bourqui, Les sources de Molière Cristina Marinho 112 Bibliografia citada Miguel Benítez, La Cara Oculta de las Luces (Investigaciones sobre los Manuscritos Filosóficos Clandestinos de Dandrey (ed . ), Sganarelle et la médecine ou De la mélancolie érotique . Vol . I . Paris, 1998 los Siglos XVII y XVIII ) . Valencia, 2003 . Olivier Bloch, Molière /Philosophie . Paris, 2000 . Manuel Maria 1984 Roger Duchêne, Etre femme au temps de Louis XIV . Paris, 2004 . Georges Forestier, Passions Tragiques et Règles Classiques , Essai sur la Tragedie Française . Paris, 2003 . Jean Luc Gallardo, Le spectacle de la parole La Fontaine, Adónis, Le Songe de Vaux, Les Amours de Psyché et de Cupidon . Orléans, 1996 . Suzanne Guellouz (dir . ), Saint Evremond: entre Baroque et Lumières (1614 1703) . Caen, 2000 . du ridicule . Paris, Klincksieck, 1993 . Patrick Dandrey, L`éloge paradoxal de Gorgias à Molière . Paris, 1997 . Patrick . Patrick Dandrey, Les tréteaux de Saturne Scènes de la mélancolie à l`époque baroque . Paris, 2003 . Jean Charles
 
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générale des publications françaises et étrangères . Vol . 615 616 (août septembre 1998), pp . 417 419 . Charles Literarios . Granada, 2004, pp . 599 629 . Antony McKenna, Molière et l`imposture devote . In: Cristina Marinho (ed Augusto Machado, Rousseau em Portugal . Porto, 2000 . Rita Marnoto, Teoria dos Géneros e Prática Literária na Arcádia Lusitana Introdução . In: Bocage (ed . Pires, 2004), pp . IX – LV . Maurice Raynaud, Les Médecins au temps . ), Lettres de Versailles . Porto, 2005, pp . 27 57 . Antony McKenna / Alain Mothu, La Philosophie Thirouin, L`impiété dans le Malade imaginaire . In: Libertinage et Philosophie au XVIIe siècle . Saint Etienne, s/d, pp . de Molière, Moeurs, institutions, doctrine . Paris, 1862 . Philippe Roger (dir . ), Critique Les Classiques décoiffés . Revue . O Processo de Contaminatio . In: José Marín / Maria Nieves Martín (eds . ), Retórica, Poética y Géneros 121 143 Roger Zuber, Les émerveillements de la raison . Paris, 1997 . Paris, 1992 . Alain Niderst, Molière . Paris, 2004 . Florence Nys, Le genre des Cartas de Olinda a Alzira attribuées à Bocage . In: Diacrítica . Ciências da Literatura , 17/3 (2003), pp . 189 209 . Daniel Pires, de Saint Évremond, Oeuvres en Prose . Vol III . Ed . de René Ternois . Paris, 1966 . Laurent clandestine à l`Age Classique . Paris / Oxford, 1997 . Jean Lafond (dir . ), Moralistes du XVIIe siècle . Modulações de um Género 113 Michel Jeanneret, Eros rebelle, Littérature et dissidence à l`Age Classique . Paris, 2003 . Fernando
 
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