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Geschichte

O Género Literário - Norma e Transgressão  190 Seite(n)
The Literary Genre - Norm and Transgression
John Greenfield (ed . )

O Género Literário - Norma e Transgressão
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Ausschnitt aus dem Kapitel: Diálogos do Texto e da Imagem em William Shakespeare: Instabilidade na Construção do G énero
 
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no primeiro encontro dos amantes de Verona, ou na alba ou alvorada que acompanha a sua despedida após a noite herói de Hamlet (1600 1601) , iriam conferir uma presença qualificada, já se inscrevera, então na forma poética do soneto, hipercodificação modal que o género traduz: no plano histórico literário e empírico é bem mais contingente a identifica ção de identificar se na leitura de Tess of the D’Ubervilles (1891), de Thomas Hardy, Under the Volcano (1947), de Malcolm Lowry, (1674), no Livro IX, que narra a tentação e queda de Adão e Eva, os mesmos ecos vibram na sugestiva de contornos obscuros e consagra o fundo sentimento de perda tradicionalmente associado às criações trágicas . E em Paradise Lost emprestado as suas convenções à acção dramática de As You Like It (1599 1600) ou de The Winter’s Tale (1609), um registo matricial que actue como princípio integrador de uma criação que é sempre única na especificidade da sua ars Diálogos do Texto e da Imagem em William Shakespeare: Instabilidade na Construção do G énero 1 . Não é difícil ou Cal (1983), de Bernard MacLaverty, o recorte de uma estrutura trágica convincentemente articulada com uma ‘consciência íntima’ textual que, de amor, em Romeo and Juliet (1595) . O modo lírico, narrativo ou dramático, categorias abstractas e atemporais, convivem com combinatoria e nos acidentes da sua geografia variável . microestrutura trágica do poema épico . As tradições do género pastoril, também acolhidas no texto de John Milton, haviam já se não define o sentido de participação do homem no seu destino, pelo menos recolhe a insinuação de um desenvolvimento esta forçosa miscigenação do texto literário concreto . É então que reflexão teórica é chamada a intervir nesta reactualização e e a expressão lírica, que decisivamente informara Richard II (1595) e a que os solilóquios do príncipe da Dinamarca, o
 
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Jean Paul o critério iria buscar se à inscrição canónica do tempo na obra – o passado respiraria na narrativa, o eixo de uma distinção repousaria no eixo das relações entre sujeito e objecto e, nessa conformidade, a síntese do o presente no imediatismo da expressão lírica, o futuro nas tensões de uma acção dramática que se projecta no futuro obra ( v . g . Benedetto Croce) o problema deixa de existir, mas até em contextos de afirmação da combinação e pelo reajustamento, pela metamorfose, fusão ou ruptura de tradições . Assim sendo, a identificação de um feixe comum plena autonomia do génio criador e da ênfase dada a uma inspiração poética irredutível ao espartilho da razões da teoria, recolhe se ao lugar da dúvida e à revisão que lhe dita um material empírico vasto e instável, animado pela configuração instável que é a literatura . Deste modo, e convocando dois exemplos bem conhecidos da estética romântica, para Hegel e algo haverá de comum entre a comédia de Shakespeare, a de a sua condição precária: o olhar olímpico de uma visão abrangente, definitiva e universal, imune às contingências históricas do seu de outro modo nas ciências humanas, domínio em que o sujeito se interroga e se descobre no próprio acto de de códigos e referências é alheia à simples normalização do terreno acidentado onde germinam o híbrido, o atípico, o heterodoxo interrogar e descobrir . Para quem o género se dissolve na individualidade incondicionada do artista e na unicidade da sua passado que seja o momento mais vivo da ruptura iconoclasta, sobrevivem padrões de ordenação do corpus informe dessa nebulosa de ou o inédito . Algo aproximará certa mente a tragédia de Sófocles da de Marlowe, Racine, Büchner ou Arthur Miller, em permanente mudança . Também aqui o fenómeno se revelou mais rico do que a ideia, e não poderia ser Nuno Ribeiro 68 É hoje princípio incontroverso que a elaboração de uma teoria do género não poderá deixar de aceitar objectivo – a narrativa – e do subjectivo – a lírica – viria a consumar se no drama, e para . Para quem o género ainda constitui um conceito operativo de largo alcance na compreensão da obra literária, a perspectiva objecto, disponível e submisso à categorização e valorização essencialista, há muito que soçobrou perante a rebeldia de uma criação estética
 
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da memória literária da comédia, hipotecada por códigos e convenções acorrentadas ao horizonte histórico que as viu nascer e ao de Steiner (1961) . de viagem ou bifurcações de extracção mais recente, a disputa de uma prioridade lógica e ontológica que, pelo menos desde o texto dramático, organismo de palavras, se realiza em espectáculo, pode encontrar noutras formas de expressão estética, sejam velhos companheiros com outras artes performativas, a consolidação de um contexto histórico literário e cultural secularizado que dispensa o ser humano de , da coreografia e da encenação pomposas e extravagantes que sufocam o texto na vertigem do movimento e na sedução uma ordem cósmica com a qual se tem de aprender a viver e a morrer? E nas segundas, qual a Instabilidade na Construção do Género 69 Ben Jonson ou a de Oscar Wilde . Mas o sentimento trágico, se existe Aristóteles, por regra lhe foi reconhecida . A palavra terá perdido o seu poder sugestivo em favor da gratificação imediata the Fifth : ‘[ ... ] Piece out our imperfections with your thoughts . / Into a thousand parts divide oferecida pela plasticidade da imagem? O desafio à imaginação da fala do Coro inicial de The Life of King Henry trabalho sobre uma linguagem que se foi transfigurando a ponto de se tornar, em grande medida, irreconhecível . E se a propósito do género dramático: o estatuto indeciso de algumas peças de Shakespeare ou de Tchékhov, o cruzamento do drama fácil pelo espectáculo da cor e da imagem? O problema é 1 A morte da tragédia diagnosticada no conhecido estudo buscar o seu destino para além das estrelas e esvazia a tragédia de qualquer substância vital, 1 ou a efemeridade ou de Desdémona? E em que nos reconcilia o sacrifício de Hipólito, o de Woyzeck ou de Willie Loman com nas primeiras, conhece variações que é difícil aplainar: Édipo tem de morrer, mas que sentido tem a morte de Cordélia feito de recon figurações do texto para servir o gosto da época, da promoção do actor ao estrelato de primaballerina one man / And make imaginary puissance . [ … ]’ – terá cedido os seus direitos no longo percurso função do riso na sorte de Shylock ou de Volpone? Outros campos de indecisão acrescentam dificuldades a estas aporias suscitadas
 
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et passim . À discriminação aludida se refere explicitamente Aristóteles (de Sousa, ed . , 1985, p . 109) . . Mas o que importa neste passo salientar é que a fórmula horaciana ut pictura poesis viria frequentemente a emoldurar um debate que dividiu lealdades e procurou simultaneamente engenhosos consensos: a pintura era vista como texto, poesia em movimento, e a compreensão renascentista tenderá a inverter); a comédia é relegada para o terreno das formas inferiores . Esta hierarquia não Nuno Ribeiro 70 antigo, como se sabe, e o contraditório que o estrura estende se a outros patamares da estética cena inicial de Timon of Athens (1605), e as reflexões de Sir Philip Sidney, a que se voltará noutro momento a poesia era a fonte geradora de representações, a imagem silenciosa . Esta vexata quaestio não pode aqui sequer ser separar o dramaturgo Ben Jonson e o arquitecto Inigo Jones, também não andará muito longe . Mas é bem longe Verbo e o Verbo era Aristóteles . Para ele toda a poesia é mimética e no seu corpus avultam as e da dialéctica neoplatónica dos humanistas: documenta o exemplarmente o quadro de Ticiano, de 1560, que retrata, na Vénus nua : os homens melhores da tragédia e os homens piores da comédia distribuem se no palco do drama segundo discriminações que residem as origens de uma questão litigiosa com muitas ramificações e desenvolvimentos . 2 . No princípio era o objecto de ilustração satisfatória . Registe se apenas o locus classicus do diálogo entre o pintor e o escritor, da . 2 A controvérsia acerca do lugar do texto literário e da imagem na economia da representação, que veio a de ordem social e moral . 3 Mas o que importará destacar nesta consagração da 2 Uma referência específica e suas remissões colhe se em Geoffrey, ed . (1973), p . 50 . 3 Frye (1957), pp . 33 52 expressões qualificadas da tragédia e da epopeia (em partilha de eleitos que reserva o ascendente à criação trágica, relação que e no tocador de alaúde, a emulação estabelecida entre os sentidos da vista e do ouvido na representação da beleza se limita a descrever, no plano da adequação estética, expressões típicas do modo mimético superior e do modo mimético inferior
 
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aqui o exame da porosidade ou sobreposições experimentadas nas criações estéticas do tempo ou das flutuações da teoria a esse 4 E não é menos certo que a imitação das acções, vivendo tradicionalmente no seio de uma construção assente em e pelo movimento de uma realidade dinâmica que se não oferece à serenidade do olhar, e por uma verdade esquiva, sejam unas e completas, e todos os acontecimentos se devem suceder em conexão tal que, uma vez suprimido ou deslocado rumos imprevisíveis de uma praxis poética refractária às intenções disciplinadoras da teoria, sobretudo quando esta se deixe crispar na fossilização de um eterno presente . O drama renascentista, que abandonara a transparência da figura alegórica e as ostensivas marcas edificantes refractada nos jogos da ilusão ou nas formas e brilhos incertos da perspectiva e do chiaroscuro , e abertos ao que, quer seja quer não seja, não altera esse todo (de Sousa, ed . , 1985, p . 115) . o que é excessivo ou redundante: [ ... ] o mito, porque é imitação de acções, deve imitar as que da tradição medieval para modelar a personagem densa e complexa entregue ao indeterminismo das suas escolhas e decisões e aos respeito . Apenas se mencione a reflexão cautelosa e atenta a simplificações abusivas de Steadmann (1990) . Instabilidade na Construção do Género 71 superioridade ontológica da tragédia é o rigor da construção do texto, expurgado de tudo É certo que este privilégio concedido à imitação de acções na economia da construção dramática terá de conviver com os dilemas de uma progressiva secularização, verá depois outros desenvolvimentos, menos austeros e menos enfáticos no equilíbrio e clareza das formas, hibridismo da tragicomédia; e ao sentido lúdico da criação estética barroca responderá a sensibilidade maneirista, seduzida pela representação do corpo se bem que retendo uma segura técnica de composição no quadro desenhado no fascínio pela exuberância de motivos, pela energia profanado no martírio ou pelas formas distorcidas e torturadas que registam o paradoxo do triunfo de uma igreja militante . um deles, também se confunda ou mude a ordem do todo . Pois não é parte de um todo o deliberados equilíbrios, poderá ceder às reivindicações de um elemento estrutural da ficção dramática especialmente afirmativo de um 4 Não caberá
 
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1846): [ … ] If any literary work is too long to be read at one sitting, we must be recorre a uma linguagem expressiva e intensa, ainda visa produzir, na sua estrutura depurada e concisa, uma ‘unidade de efeito’ ter logrado germinar em terrenos inesperados . Edgar Allan Poe, que já em 1842 expusera, a propósito de Twice Told ed . , 1967, p . 482 . ) . Assumirá igualmente ressonâncias familiares o juízo acerca da universali dade a orientação aí propugnada na especiosa anatomia do processo de criação do poema The Raven , alegadamente conduzido, em todos remissão de um horizonte fechado? Uma Poética legada em configuração lacunar e fragmentária, para mais investida de uma jurisdição forçosamente . E o mesmo não decorrerá da relação de forças instituída entre o ambiente representado e as personagens de Ibsen os seus estádios, ‘with the precision and rigid consequence of a mathematical problem’ ( The Philosophy of Composition , de content to dispense with the immensely important effect derivable from unity of impression – for, if two sittings be required, Tales , de Nathaniel Hawthorne, aspectos nucleares do seu entendimento do short story , de que foi autor exímio, recupera condicionada pela grandes criações trágicas do século de Péricles, não deixa, todavia, de reclamar a actualidade e o merecimento dos da criação poética no seu confronto com áreas instituídas do saber Nuno Ribeiro 72 estatuto qualificado na economia da acção dramática ou na demarcação de um território soberano no universo humano the affairs of the world interfere, and every thing like totality is at once des troyed . [ … ](Galloway, no espectador e leitor . Ressalvados os estereótipos contidos numa estética formalista sensível a atitudes fundamentais ahistóricas ou à identificação ou Tchékhov, por regra agrilhoadas a um espaço e a uma natureza que as condena, ou sufocadas na melancolia sem de elementos estruturais matricialmente conformadores do universo dramático ou do mundo épico narrativo, referências fundamentais da lição aristotélica parecem mesmo mais produtivos textos fundadores . O texto dramático ainda repousa no paradigma de harmonias inscritas numa acção rigorosamente articulada, ainda representado: a eminência titânica do Tamerlão de Christopher Marlowe introduzirá por certo desequilíbrios insanáveis naquela funcionalidade orgânica da teorização aristotélica
 
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97 103) . A este permanente regresso ao magistério fundador do estagirita se vem aliar a supremacia de um princípio suscitar uma controvérsia ainda hoje não superada: Quanto ao espectáculo cénico, decerto que é mais emocionante, mas também é o contextualizar e qualificar a proverbial hostilidade de Platão à poesia e ao drama (Shepherd, ed . , 1973, pp . à cristalização do pensamento na palavra escrita: a estrutura contraditória e prospectiva dos diálogos apenas viverá na 115 . ) . Sir Philip Sidney (1554 1586) irá, muitos séculos depois, enaltecer o poeta, capaz de criar uma seus efeitos; além disso, a realização de um bom espectáculo mais depende do cenógrafo que do poeta (de Sousa, ed pelo menos de acordo com a sugestão de C . Jan Swearingen (1991, pp . 11, 14, 15 et passim) logocêntrico de formidável alcance histórico cultural: o registo oral, por mais mais convictamente empenhado que seja (‘em verdade, em verdade ’) . Mas a consagração do texto escrito como o lugar estratégico e eixo inamovível da criação dramática viria a a história, pois refere aquela principalmente o universal e esta o particular’ (de Sousa, ed . , 1985, p . , que a menorização do espectáculo e a prioridade lógica e ontológica do texto literário reajam à atitude platónica hostil a terra . Ele não mente, pois quem nada afirma ou nega não pode mentir: o poeta não procura oferecer tradições sagradas da poesia, da salmódica hebraica ou as criações dos vates gregos e latinos, cita Aristóteles e procura mesmo aos espaços infinitos da verosimilhança e da necessidade: ‘a poesia é algo de mais filosófico e mais sério do que vos digo, ... ’), só encontra verdadeira garantia na solidez canónica e primordial de outro discurso (‘pois está escrito ... como verdade os produtos da sua imaginação fecunda . Não esquece o autor de An Apology for Poetry (1595) as . , 1985, p . 113) . Aristóteles nunca terá assistido às representações sobre que teoriza, e é bem possível, menos artístico e menos próprio da poesia . Na verdade, mesmo sem representação e sem actores, pode a tragédia manifestar Instabilidade na Construção do Género 73 – a História encerra se no conhecimento do passado e a poesia abre se segunda natureza, revestida de tapeçaria mais rica e mais formosa do que a formosa e rica natureza que profusamente ornamenta
 
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breve confirmada na teorização dogmática horaciana (é obsidiante o recorte normativo da conhecida Epistola ad Pisones ), 5 com larga a inovação renascentista . E a desconfiança em relação a preceitos e a poéticas normativas, conjugada com a filtragem de Nuno Ribeiro 74 flexibilidade de um discurso oral que permanentemente se interroga e reformula e generosamente se compromete na demanda influências oriundas do coração do mundo católico, iriam construir a especificidade de um drama percorrido pela memória viva da espectacularidade renascentista e académica e as solicitações a que a reflexão mais arrojada se vai abrindo ( v . g . e devidamente informados por regras que lhes impedem a mestiçagem, lhes dão sentido e lhes definem a natureza (Ludovico Castelvetro, exuberante dos pageants medievais, pela 5 Para documentá lo bastaria folhear se a edição acessível mas rigorosa de Rosado Fernandes de uma verdade sempre inconclusiva . Mas a consistência e a solenidade do texto literário, sobrepostas a uma representação que tradição, ou o que dela se faz, encontra no drama erudito criações relativamente modestas, reabrindo as tensões entre a fixação Arte Nuevo de Hacer Comedias , de Lope de Vega) ou a vitalidade de um espectáculo como a commedia dell’arte , que estiliza papéis e personagens mas rasura o texto para destacar o sentido de improvisação do actor, as virtudes fortuna em poéticas renascentistas mais sensíveis à reconfortante segurança das categorias essencialistas, dos géneros maiores e menores, de consumada expressão (ed . , 2001) . ofereceria, com particular evidência no teatro comercial e popular isabelino, a simbiose fecunda entre a tradição medieval e popular e da farsa e o primado da imagem e do movimento . 3 . Em Inglaterra, o messianismo da nação protestante é, ela também, austera e codificada, aclama a solenidade do subgénero trágico nessa lógica valorativa que hierarquiza e classifica, em 1505 1571, ou Julius Caesar Scaliger, 1484 1558, são nomes que a memória imediatamente convocará) . E a autoridade da
 
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arte que supostamente só conhecera alguma dignidade na erudição dos humanistas conquistados para as virtudes persuasivas do teatro . A do tempo, do espaço e da acção, em misturar reis e bobos, navegando naquelas mesmas águas turvas, à deriva na corrente do oportunismo que apenas consegue viver do riso alarve das multidões ignaras . É mesmo certo que nem Shakespeare, ou das práticas e rituais da festa comunitária e de uma religião natural . A filiação clássica do pensamento de Instabilidade na Construção do Género 75 inscrição da estrutura e da figura alegórica ou ainda pelos ecos da mitologia popular identidade, inebriar os sentidos e seduzir pela representação do excesso e do vício . O teatro comercial e popular negociará pela imagem e pela palavra, reorientando as energias e pulsões centrífugas e indisciplinadas para a exuberante retórica da ficção dramática e para o espectáculo . Aqui também se precisa da ficção para se não morrer de tanta realidade, embora apenas 1561 ou 1562, Gorboduc (ou Ferrex and Porrex) , de Thomas Norton e Thomas Sackville . O decorum do legado consegue resgatar da generalizada mediocridade das criações trágicas do seu tempo, e ainda assim de modo condicionado, uma peça de com os seus gestos livres e a rugosidade e desmesura das suas criações dramáticas, o tivesse podido reconciliar com uma contextos concretos da representação de recuperar, embora com sentimentos mistos, o palco da ilusão sinuosa e do engano, erguido para profanar a verdade e a reino, depois recuperada, na sua expressão mais ilustre, em King Lear , de Shakespeare – emancipavam na do lamentoso conglomerado este propósito se registe o paradoxo de uma cultura reformada que repudiara o culto das imagens da antiga fé para clássico e a inspiração colhida em Séneca – e ainda a actualidade da sua referência temática central, a divisão do cuidadosamente o seu direito a existir mas saberá satisfazer a sede de emoções fortes e alimentar o fascínio pelo movimento, de artefactos desconjuntados, sem regras ou critérios orientadores . A comédia, por seu turno, não hesitava em pulverizar as unidades Sir Philip Sidney, reiterando o prodesse aut delectare da tradição e conjugando o com o mouere do sentimento puritano, apenas
 
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problema de sempre . O horizonte de expectativa, como se diz na terminologia de que fazem uso as estéticas da à imoralidade dos bordéis e das combinações mais obscuras, representados nesses perigosos ajuntamen tos, e à impiedade do palco e os grandes do mundo . Panes et circenses : a ra i nha Isabel cedo entendeu os benefícios dessa reconversão de Shakespeare deu motivo . Valerá ainda recordar a ocorrência anedótica, tornada proverbial, que foi o gáudio provocado por representação à afrontosa irreverência dos actores, agentes de uma cada vez mais sugestiva rivalidade estabelecida com o espaço histriónico do púlpito – nesse universo da imaginação em que se é rei por breves horas e alguma justiça poética torna igualmente vulneráveis entusiasmo vertiginoso da mudança social e política, tomou o Hamlet por uma comédia e saudou o com espontâneas e generosas de aprendizes e mesteirais, à fonte de perturbação da ordem, do favorecimento da propagação de epidemias e do ambiente propício da austeridade puritana do Lord Mayor e da municipalidade, mais sensíveis aos atentados à sacralização do trabalho e ao descaminho representação de The Merchant of Venice , dirigida por John Gielgud, que também pisou o palco no papel de Shylock, gargalhadas . no ano terrível de 1938, e John Barton (1984, pp . 191 192) lembra, no depoimento de Ian McKellen, o e dos entusiasmos retóricos do pregador . E bem antes, em 1535, numa obra de natureza ostensivamente edificante, 6 Um Nuno Ribeiro 76 um texto já conformado pela censura prévia e pela autocensura possam decidir do sentido e alcance desta recepção, pode desfigurar a identidade do subgénero e abri lo a leituras explicitamente determinadas pelo contexto de representação . John meses após a ‘Primavera de Praga’ e o afastamento de Alexander Dubcek, a funda perturbação a que a peça histórica e aprendizes, feito de impotência e intimidação, explora ção e sofrimento bem merece ser ressarcido – por procuração, é certo infeliz monarca deposto de Richard II , peça levada à cena na Checoslováquia pela Royal Shakespeare Company, em 1969, seis função reintegradora de uma arte de massas . 6 Seja como for, o quotidiano de uma arraia miúda de desenraízados de companhia inglesa, na Rússia imediatamente saída da revolução bolchevique, da tragédia do príncipe da Dinamarca? O público, envolvido no Gross (1992, pp . 178 180) regista, por exemplo, o embaraço causado pelas dúvidas acerca do sentido de oportunidade da de tensões que o teatro poderia activar no quadro de uma tolerância consentida, bem ao arrepio do zelo censório e
 
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espaço teatral a um forte sentimento de participação e de partilha . No teatro grego clássico a dimensão estética aliava histórico de afirmação do direito de autor (pp . 119 120) . proximidade física do apron stage e pela estrutura do edifício, decorria da acção combinada do poder da imagem e da Thomas Cromwell, Richard Morison, qualificava de modo algo surpreendente o poder sinuoso e capcioso de uma arte maldita: ‘ Into that they eare ’ (in: White, 1993, pp . 13 14) . Uma só imagem vale mil palavras . É dos procedimentos informáticos) não parecem confirmar esta óbvia e histórica supremacia . Nas suas provas muitos estudantes universitários exibem, com se aos rituais da comunidade, no teatro medieval a sedução do espectáculo legitimava se no envolvimento celebratório e na intenção publicação vir muitas vezes a colher autoridade na prévia representação . 7 Todavia, nas situações mais inesperadas as marcas de the commen people thynges sooner enter by the eies, then by the eares: remembryng more better that they see then sugestão e da mais arrojada exploração das possibilidades retóricas da língua e do gesto . Mas ainda aqui a opsis alia, Masten, 1997, passim . Masten revela se muito céptico acerca do alcance decisivo, sublinhado por boa parte da crítica, devocional; e na Inglaterra isabelina, a espontânea entrega do público à vivacidade de uma representação tornada ainda mais intensa pela Instabilidade na Construção do Género 77 Discourse touching the Reformation of the Laws of England , o escrupuloso secretário de funcional reapropriação . 4 . O nosso tempo já não é o daquela civilização oral e visual que abria o não lograva sufocar a lexis , apesar de o texto dramático não se assumir ainda como literatura e a sua frequência, os sinais de uma atitude que tende a marginalizar o esforço 7 Sobre o assunto, cf . , inter da publicação em livro da obra de Ben Jonson (1616) e dos textos dramáticos de William Shakespeare (1623) no percurso que a eficácia persuasiva do drama, pragmaticamente inspirada nas práticas abomináveis do culto católico, convidavam já a uma expedita e uma civilização da palavra escrita (talvez já não manuscrita, tal a cruel necessidade que dita a sua redução à impessoalidade
 
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fruto de autoria colectiva, do crivo da censura prévia e da auto censura – que se entregavam, em manuscrito nem espectáculo obedeciam às drásticas oscilações de um quotidiano incerto e ameaçado que incluía as forçadas digressões na província quando os de construção da narrativa, em evocação do legado de Joyce, constituiria sempre um exigente desafio para o leitor arguto e sugerem o cuidado a usar no recurso ao registo audiovisual no estudo do texto literário . No tempo isabelino, o não valerá a pena repetir aqui . Mas as dificuldades na fixação e transmissão daqueles produtos – não raro o persistente; mas a examinanda nem sequer tinha lido o livro de Anthony Burgess, A Clockwork Orange [ A Laranja mecânica . No entanto, o interesse manifestado nessa prosa tão empenhada escolhera outro objecto: Jeremy Irons e Meryl Streep, e o escrito registava um entusiástico depoimento acerca do conhecido romance The French Lieutenant’s Woman [ A Amante do Tenente Francês ] filme de Karel Reisz, tinham feito as vezes de Charles e Sarah, e do romance de John Fowles . Também Nuno Ribeiro 78 de análise e interpretação do texto e a procurar ilusórios sucedâneos em vias mais acessíveis e imediatas 1939: o desfecho da narrativa era assinalado pela morte de uma Catherine amorosamente acolhida nos braços do seu impossível e sempre em bom estado e com teatros londrinos eram encerrados devido à peste, que periodicamente assolava a grande urbe . É uma história bem conhecida que Emily Brontë e Wuthering Heights viriam a ser postergados em favor do cineasta William Wyler e do seu filme de . Uma estudante dissertava com airosa desenvoltura sobre um romance que, pela inovação no plano da linguagem e nos processos texto dramático servia por regra as necessidades de representação e era sujeito, sempre que necessário, a expeditos processos de revisão inconsolável amante, Heathcliff, por sinal interpretado por Sir Lawrence Olivier . E os exemplos poderiam multiplicar se . Estas observações e montagem: os cortes, adaptações e reformulações desse precário corpo de palavras em busca dos caminhos de uma actualização em ] – terá achado menos moroso e mais colorido o filme de Stanley Kubrick . Numa outra ocasião, um exame
 
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of Athens , George Peele na de Titus Andronicus , que persistem algumas dúvidas acerca da paterni dade de Pericles Instabilidade na Construção do Género 79 aceitável legibilidade, aos processos artesanais da impressão e composi ção e às escolhas editoriais a participação de outros autores (John Fletcher é muitas vezes convocado a este propósito), que Thomas Nashe se terá associado Shakespeare que legitimaria a sua inclusão no cânone, o mesmo valendo para Sir Thomas More , e que a peça chamado First Folio (1623), o espólio reconhecido das criações dramáticas compilado pelos seus amigos, os actores John Heminges e Henry generalizada e a vasta constelação de dilemas textuais insolúveis . Haveria sempre que reconhe cer, ainda assim, as inevitáveis perplexidades de partida e ponto de chegada . Neste contexto, a obra do dramaturgo de Stratford nem sequer se conta entre as de configuração mais oscilante e esquiva . Sabe se, é certo, que Henry VIII ou Two Noble Kinsmen acusam Cardenio , que se perdeu, também denunciaria a sua presença . 8 Todavia, para além de alguma investigação ter advogado Giorgio Melchiori para a New Cambridge Shakespeare (mas o esforço peregrino coube a Sams, 1996) . , que The Reign of Edward III revela, com alguma con sistência, a hipótese de uma contribuição tão substancial de do tipógrafo (por vezes judiciosas, por vezes limitadas pelo espaço disponível da página a imprimir, o que poderia exigir, por que tal empresa suscita . 8 Edward III , o exemplo mais relevante dos mencionados, foi editado, em 1998, por a tese de que a Shakespeare não terá faltado escrúpulo na revisão dos seus textos dramáticos, a publicação póstuma do Condell, veio a constitui se em fonte providencial, capaz de reduzir vastas áreas da referida indefinição canónica, atenuar uma instabilidade sortílego das Three Weird Sisters , em Macbeth , e o mesmo dramaturgo estará também presente na composição de Timon a Shakespeare em Henry VI, Part One , que a pena de Thomas Middleton será responsável pelos versos do canto exemplo, que do verso se fizesse prosa), não lhes retira, no estudo do drama isabelino, a sua condição de ponto
 
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1985) . cínico de Troilus and Cressida , que Rosalie L . Colie (1990, p . 110) não ousa sequer classificar . paradigmático de ambiguidade: registo folião de um processo de amestramento da irascível megera, finalmente convertida ao redil da obediência doméstica especialmente atentas aos dilemas activados pelas estratégias de persuasão e com o sentido celebratório do desfecho, ao cepticismo sombrio e que junta o estatuto ambíguo de Measure for Measure [Medida por Medida] , 10 texto aberto a leituras desencontradas, mas de um modo geral apoiados na referência temática da regeneração e da passagem de testemunho para as novas gerações . Histories , Tragedies . 9 No universo da comédia se agrupam criações muito diversas, desde as comédias festivas , na cf . , inter alia, Danson, 2000 . 10 Na verdade, quase todas as peças de Shakespeare seriam ‘problemáticas’, e Nuno Ribeiro 80 Na verdade, é patente a imprecisão e sincretismo da conhecida distribuição tripartida do corpus canónico: Comedies , conhecida designação de C . L . Barber (1959), que desenham a instituição do conflito no afastamento para o ‘mundo Ou ainda aquelas peças a que a crítica viria a chamar problem plays , conceito de acepção compreensiva e insegura da autori dade e da civilização, com a promessa de fecundidade que liga os seres humanos aos ciclos de uma pelo talento do seu domador? Ou, inversamente, torna se o domador na coisa domada, ironicamente superado pelas artes subtis de a expressão não se restringiria à comédia (ao lado do estudo de Lawrence, 1969, encontramos, por exemplo, o de Tillyard, absurdum do ardiloso 9 Acerca dos problemas aqui enunciados e das convenções que tendencialmente governam os subgéneros cultivados por Shakespeare natureza sempre renovada . Nele cabem também os romances ou romantic plays , que afastam relações de causa e efeito, acentuam os direitos do maravilhoso e introduzem os sofisticados recursos cénicos das mascaradas e das celebrações de cunho aristo crático, verde’, lugar de perda, da metamorfose, mas também da experiência iniciática e da revelação que permitem o regresso ao espaço uma Catarina que soube entender as regras do jogo que lhe fora proposto e conquistar, a final, no reductio ad E que se diria, ainda, de The Taming of the Shrew [O Amansar da Fera] , para muitos um caso
 
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de reprocidade de afectos e, até, uma discreta autoridade? Mas esta última leitura do velho tema da guerra dos sexos de acordo com a conhecida tese defendida por Susan Snyder (1979), encontrará em Shakespeare uma configuração atípica e bem pouco seu lado, a tragédia não deixa também de revelar desenvolvi mentos de natureza peculiar . A sua técnica de composição, of the Jew e testem se a sua condição de texto aberto e os limites da sua interpretação . Por Média, de larga fortuna no Renascimento e em sucessivos prolonga mentos e metamorfoses até aos nossos dias, ainda matricialmente regidos e a razão de viver soçobram quando falecem a honra e a identidade laboriosamente conquistadas que nem a solenidade do de Mercúrio, arrastando depois a de Tibaldo, descreve uma súbita inflexão que altera a sorte dos amantes e modifica a não redundará aqui num subterfúgio destinado a redimir uma peça ferida por uma longa tradição misógina, especialmente condimentada na Idade discurso com que se despede do pelas estruturas sociais e culturais do patriarcado? Opções teóricas apostadas na desautorização de ‘sentidos aparentes’, demasiado óbvios, e a pesquisar a cesura que o deslocaria para a instituição e adensamento do conflito e para o desenvolvimento trágico . A morte Instabilidade na Construção do Género 81 espectáculo de submissão que é a sua exortação final às mulheres transviadas, um espaço e pela autora discutidos, é na sortílega ilha de Chipre, fronteira entre a civilização e a barbárie, que o negro encontrar o que procura . Como alguém sugeriu, substitua se o título The Taming of the Shrew por The Taming natureza de Romeo and Juliet ; da mesma forma, e para referir apenas mais um dos exemplos aduzidos por Snyder ‘sentidos ocultos’, mais subtis e mais consentâneos com a dignidade do texto, podem corresponder a um dogmatismo que sempre saberá uma filiação do sentido e da arquitectura iniciais da acção dramática no modelo da comédia, só depois neste se introduzindo curial: a experiência adquirida pelo dramaturgo no terreno da comédia e o prestígio que o subgénero havia granjeado teriam favorecido Otelo, ínclito general de Veneza e brioso consorte da patrícia Desdémona, virá a conhecer a mais profunda desdita: a felicidade
 
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muito consentânea com um legado apoiado em consagrados equilíbrios e noutro sentido de integração dramática, o mesmo se dizendo dos Hal e Raphael Holinshed, mas dá vida às figuras aprisionadas nos factos da narrativa histórica e não hesita em reconfigurar os dados aí 11 Permanecem actuais, a este propósito, as argutas considerações produzidas em 1823 por Thomas De Quincey, tantas interesse do estudo seminal de Welsford, 1961 . e os ecos do legado medieval numa densidade simbólica estrategicamente localizada na economia do texto, 11 os coveiros da primeira cena do último acto de Hamlet , calejados na sinistra convivência com a decadência do corpo e a banalidade da vezes reproduzidas (cf . , inter alia, Wain, ed . , 1968, pp . 90 93 . 12 É bem do bobo, muitas vezes o agente da revelação refractada da verdade, senhor da subversiva docta ignorantia do célebre encómio de conhecido o Encomium Moriae , de Erasmo . Acerca da figura do bobo: o tempo não pôde ainda rasurar o Erasmo e da memória medieval, 12 ou ainda da personagem excessiva e perversa do vilão isabelino, herdeiro do demónio e a criação de Shakespeare emprestará verdeira consistência e dignidade, busca inspiração nas Crónicas do reino, designadamente no testemunho de Edward morte, constroem na verve cómica do seu discurso e no desembaraço da sua atitude uma sequência sugestivamente barroca e não Nuno Ribeiro 82 mundo ou o gesto de auto imolação com que procura recuperar a sua imagem perdida lograrão redimir gestos insinuantes e do poder eró tico agressivo e devorador da figura feminina de Antony and Cleopatra , da presença o prota gonismo da acção dramática, encontram o destino escrito nas estrelas e serão mais vítimas do que heróis trágicos, . E, por seu turno, nem a representação e o estatuto do herói guardam zelosa fidelidade à tradição clássica do do Vice medievais e sem rigorosas correspondências na tragédia grega clássica . A peça histórica, subgénero dramático a que só a cena do porteiro, a terceira do segundo acto de Macbeth , introduz a incongruência do cómico na tra gédia género, nem o decorum e os equilíbrios da tradição clássicas merecem apreciável respeito e veneração: Romeu e Julieta, que partilham
 
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Tillyard, 1944 . Macbeth merece do autor um pequeno capítulo: na tragédia se afirmarão referências axiais da peça histórica . dissoluto Falstaff, na sua verve cómica e na independência ingénua alimentada pelo princípio do prazer e pelo incondicionado instinto de sobrevivência, suscita sentimentos divididos, tal como Hal, na frieza da sua relação distanciada e assimétrica mantida com os seus companheiros e a peça iria até constituir instrumento catalizador da desastrada e infeliz revolta do conde de Essex . desde o reinado do último rei Plantageneta à instauração da dinastia Tudor, exprime nesse confronto oportuno e bem pouco isento Apesar do aqui enunciado em tese geral, Shakespeare não deixa de abrir espaços de indecisão nestas peças de recorte ostensivamente político: o vilão disforme e pérfido de Richard III surpreende pela sua inteligência e mobiliza, por vezes, a cumplicidade do cometido pelo pai, e final mente o rei de sinuosos argumentos de glória e conquista e o guerreiro indomável de sugestões sediciosas e envolver alguns riscos: a cena de deposição do rei Ricardo por Bolingbrooke era geralmente expurgada das representações, Instabilidade na Construção do Género 83 colhidos sempre que isso aproveite aos interesses da ficção dramática . Os ecos do ter mos, a convocação de um tempo flagelado por lutas civis e sofrimento, no vasto painel histórico que se estende de folia e, consumada a sua regeneração com hora marcada (cf . solilóquio que encerra a última cena do primeiro público e do leitor através da sábia confessionalidade do solilóquio, o herói de Richard II perde se na venalidade e acto de Henry IV Part One ), no papel ambíguo de servidor da autoridade, redentor do pecado original da usurpação grande fervor nacionalista, de Henry V . Note se apenas que a própria representação de um poder vulnerável poderia oferecer . 13 Trata se, por conseguinte, de uma criação ex novo , sem o aval de uma tradição consolidada, e com a estabilidade, se bem que relativa, vivida pelos contemporâneos de Shakespeare, os valores do tempo cultural e político isabelino inflexão súbita ou ainda, em provocatório acervo 13 Contextos e fontes da peça histórica são objecto da atenção sistemática de desconcertos de uma estrutura não raro desalinhada e solta, convocada pela vivacidade de uma representação que progride na ironia da episódio da Armada Invencível desse annus mirabilis de 1588 lembravam ainda o formidável perigo católico e sublinhavam a gesta heróica da nação escolhida . Mas interessava preservar a unidade do reino, lição em que as homilias incansavelmente insistiam . Nestes nela se reconhece, em conformidade com a sôfrega procura de emoções fortes, a desmesura do excesso e da violência, os na indiferença perante a coisa pública mas envolve o espectador e o leitor no lirismo magoado do seu discurso, o
 
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senil . As fronteiras oscilantes dos subgéneros e o conjunto aberto de sobre posições e cumplicidades que caracterizam o inventário será estranho à construção da acção trágica entendida nos termos há pouco enunciados no corpo do texto: na deslocação operada, é próprio . Nuno Ribeiro 84 de atitudes estéticas heterodoxas, o entrelaçamento do cómico e do trágico em variado convívio de personagens, registos extravagante, em mirada irónica ao artificialismo das discriminações teóricas, falam tam bém na retórica do conselheiro do rei: The best perigosa quando o conflito invadir e pulverizar o espaço acolhedor e familiar da taberna, negar neutralidades ou indiferenças e impuser as áreas da vida e da sociedade . Quando Polónio anuncia a chegada dos actores a Elsinore e publicita a histórica: o con fronto gerado no seio da superestrutura política e interpretado pelos grandes do reino comunica se a todas 14 cruza o destino da nação inglesa, afinal protagonista colectivo da peça histórica, com a sorte infausta dos que viveram actors in the world, either for tragedy, comedy, history, pastoral, pastoral comical, historical pastoral, tragical historical, tragi 14 Depois tornada IV Part One a cruel necessidade que suprime o temerário Hotspur e rejeita o universo da marginalidade radiosa de Falstaff e sobrevivem, individualizadas e rivais na mágoa, cada uma exibindo os sinais de uma participação desigual nos eventos representados e a urgência do combate e o espaço público da batalha e da disputa violenta do poder . Este processo não na sorte que finalmente as atinge . Elas estão ali para darem corpo a um contexto nunca esquecido na peça sua substância vital; também a ama de Julieta, figura da comédia, irá fenecer quando enxertada num solo que lhe não que afasta a dominância da referência cómica centrada em Falstaff, este Lord of Misrule esmorece e vai se despojando da e ambientes . Deste modo, a inscrição trágica vive em Richard II ou em Richard III , e em Henry no tempo errado . E as cadências elegíacas daquelas mulheres, sentadas e lacrimosas, da primeira cena do quarto acto de a harmonia das vozes no comentário da acção: as figuras não se dissolvem no grupo quando a dor as une, Richard III , evocam por certo o coro das suplicantes da tradição clássica, mas não partilham com essa personagem colectiva versatilidade dos artistas, o que fica registado na prolixidade do seu discurso não é só o exibicionismo desajeitado e algo
 
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explicitamente defendida na Poética (não falando já da unidade de lugar e de tempo, da zelosa hipercodificação neoclássica, de filiação dramáticas de Shakespeare, a instabilidade na fixação e transmissão textuais convoquem a sua natureza precária, deter mina que quaisquer opções dos longos prefácios teóricos e das extensas didascálias dos textos dramáticos de o texto escrito o eixo orientador dos estudos dramáticos, mesmo que se adopte a perspectiva compreensiva e ambiciosa que refira (Jenkins, ed . 1982, ll . 392 398) O princípio de uma acção una e completa nega se no desenho . Este lugar estratégico de que usufruem the words on the page , mesmo quando, como no caso das criações o texto literário à totalidade das relações que lhe prolongam ou qualificam os sentidos e o abram a novas leituras horaciana) é pulverizada na heterodoxa dispersão introduzida por desenvolvimentos paralelos, mesmo quando abrindo espaços de ironia ou expressivas sugestões no heavy, nor Plautus too light . For the law of writ, and the liberty, these are the only men . e tão diversos companheiros de viagem, incluindo Verdis e Monteverdis e o que abaixo muito sumariamente se verá, e que jogo envolvente de aproximações e contrastes . 5 . Entre nós, como entre os contemporâneos de Aristóteles ou Shakespeare, constitui de meios diversos (os ‘ kings and clowns ’ da formulação de Sidney), e um irresistível fascínio pelo excesso e Instabilidade na Construção do Género 85 cal comical historical pastoral, some individable, or poem unlimited . Seneca cannot be too em momentos de crise chegou mesmo a recorrer ao prestígio de outras formas literárias dominantes (veja se o caso paradigmático pela vio lência, tudo em clamoroso desrespeito pelos sóbrios equilíbrios do decorum clássico; e a regra da unidade de acção, irregular aparentemente subordinado a uma lógica frouxa e a uma técnica de composição impulsiva e desordenada: súbitas inflexões introduzidas na acção dramática, cenas descontínuas na representação alternada de ambientes e situações, personagens ao desbarato e mistura afrontosa de personagens oriundas dramatúrgicas pressuponham um exigente esforço de análise e interpretação . O drama, que na sua longa existência sempre teve tantos
 
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Baus , com os seus espectáculos cheios de som e fúria, 15 É um termo, nota Ruggero Bianchi , ‘[ distribuição de papéis e no princípio da especialização o sucesso de uma ruidosa e movimentada farsa construída na estilização de farsa e do absurdo como exercício de crítica social, acorrerá de imediato ao espírito o grupo catalão La Fura dels figuras e situações . E não seria difícil identificar no nosso tempo expressões paradramáticas sem lugar seguro na catalogação do ... ] que vem de to perform : realizar, no sentido de ‘acção’ e não simplesmente de ‘execução’ que se as outras artes performativas . Um estudo compreensivo e estimulante que procura sobre isto reflectir, embora por vezes numa indagação expressão, no fundo, significa), exemplo recorrente quando se fala da desvalorização do texto, elegera como sustentáculo da representação o talento sua reconhecida vocação e consumar se em espectáculo . Todavia, uma época marcada pelo performance 15 e por uma estética Strehler, particularmente sensíveis à integração simbiótica de diferentes linguagens na expressão teatral, ou de dramaturgos como Dario Fo, mestres da genológico e modal . E com toda a legitimidade: só o texto dramático bem compreen dido poderá responder dignamente à tornou, de algumas décadas para cá, a palavra chave do vocabulário artístico’ (‘Uma assinatura do corpo e da alma: a caminho de uma arte total do aqui e agora ’, texto de colóquio recente em Turim sobre Pina Bausch, Serras confirmação da tradicional centralidade do texto escrito . Já a commedia dell’arte (ofício de comediantes profissionais é o que a género – para além da reabilitação de Goldoni e da recuperação daquela criação popular e buffa por encenadores como Giorgio Pereira, trad . , 2005, p . 58) . Cresce incessantemente a bibliografia acerca da relação entre o drama e o de Shepherd / Wallis, 2004 . e a capacidade de improvisação dos actores: a sobrevivência dessas companhias, por regra condenadas às vicissitudes da itinerância, encontrava na que valoriza o imediatismo e as virtudes interpelativas da presença física do corpo do actor não será especialmente propícia à e terminologia algo especiosas (ou é a natureza pluridimensi onal e sempre renovada do objecto que o exige ainda?), é Nuno Ribeiro 86 George Bernard Shaw, apostados em cativar os leitores que o romance quase monopolizara), sobreviveu também no discurso
 
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Malina . Por vezes esta rebelião é mais produtiva no plano da elaboração teórica: o sentido religioso e transcendente que cinquenta nomes ligados à direcção e encenação que uma recente antologia seleccionou (Shevtsova, 2005) . E não se apoia a fundadores de uma participação ritual que exorcize a razão e as suas amarras castradoras, vive, nas suas propostas estéticas, mais e passa a viver nele, ao jeito das ‘marionetas’ de Edward Gordon Craig; ou busca uma intensidade apenas conquistada na da notação abstracta e da sedução pela metáfora do que da criação sugestiva e fecunda . Mas não raro essa estética anti aristotélica brechti ana rodeia se de processos de construção dramática e de recursos Antonin Artaud quer ver no teatro, desejavelmente o espaço livre habitado pela magia do movimento hierático e pelo gesto encantatório números de equilíbrio? Despojado das marcas individuais que o definem como ser humano, o actor invade o território da personagem cerimónia mas inflamando a com a dimensão do protesto político concreto, como no Living Theatre de Julien Beck e Judith magia de A Midsummer Night’d Dream , segundo Peter Brook (RSC, 1970), na destreza dos actores, no trapézio ou em entrega o espectáculo ao dinamismo do jogo performativo e ao envolvimento e participação do público, recuperando o sentido ritual da Bausch, associada à intensidade física da dança e ao impromptu da expressão corporal do seu Tanztheater , é um dos vibração solidária do seu universo pessoal com o papel a que terá de dar vida, como em Jerzy Grotowski; ou geografia de um espaço cénico desejavelmente imune à ilusão dramática e à presença do público, como em André Antoine, ou Instabilidade na Construção do Género 87 impressionantes na movimentação circense e acrobática dos artistas, no erotismo provocatório que muitas vezes exibe e nas marcas de uma vigorosa festa popular . Nada disto deve surpreender nos: a bailarina e coreógrafa Pina sublinha uma expressividade inflamada, alheia à denunciada fossilização do texto escrito e apoiada nas tensões e nos gestos desenhados na tradição logocêntrica exorcizada, aparentemente reconhecível, ainda assim, na distribuição funcional dos elementos constitutivos do texto teatral, sofre decisivas transfigurações: a
 
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ou na utilização do trecho musical dissonante ou da projecção de imagens, residem estratégias que afastam o texto da lógica comunidade de ouvintes e do vate responsável pelo canto homérico); depois, a mais rigorosa disciplina dos actores, a brancura marcial (o palco reclama território ao domínio comum do espectador, invadindo o para criar uma relação de proximidade talvez evocadora da se na vibração mais profunda e mais terrível de uma cerimónia solene colhida nas origens heróicas e primitivas: ainda recentemente da in dumentária e os efeitos das vozes guerreiras, o jogo do movimento da figura e do grupo, a tensão sugestiva da linguagem, desembaraçado na montagem e na reconfigura ção do texto em face das necessidades e objectivos da representação, e representação, refira se ainda que as heterodoxias incluem experiências que parecem alimentar se de um fundo mítico a projectar contida na imobilidade ou subitamente des pertada numa energia desenhada a rigor na formação da falange ou na fragmentada, no provocatório artificialismo dos adereços ( v . g . legendas e cartazes que identificam personagens, lugares e situações) intervenção do narrador, nos desafios e enigmas da parábola, no jogo descontínuo da montagem de uma sucessão de quadros tendencialmente livre e desimpedido em relação à mimese e à verosimilhança . Não admira, pois, que nele o dramaturgo alemão viesse persuasiva aristotélica e da integridade do seu mythos . O teatro isabelino era parco em indicações didascálicas, rico na capacidade a encontrar uma referência permanente . Para se finalizar a enunciação exemplificativa e lacunar das múltiplas descontinuidades estabelecidas entre texto épica, traduzida desde logo na alvura agressiva e na sobriedade clássica da cena ou na peculiar reconfiguração do espaço teatral a Ilíada , Canto XXIII , de Anatoly Vassiliev, ofereceu, nos palcos portugueses, a majestade e o assombro da narrativa Nuno Ribeiro 88 cénicos tendentes à neutralização da verosimilhança . A peça é exibida como artefacto, os actores não disfarçam a sua condição e desencorajam ostensivamente a empatia narcotizante gerada na tradicional identificação do espectador com o herói . Na
 
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se estabelece o primeiro contacto com a obra do dramaturgo . Os meios audiovisuais ditam, aqui também, as suas regras: como no tempo do prudente conselheiro de Thomas Cromwell, para a gente comum uma imagem continua a valer mais do a ‘ansiedade da influência’ e criar um espaço próprio . E mesmo no palco esta fuga para diante, alegadamente a ostensiva do movimento, no gesto maquinal com que se desimpede o espaço juncado de cadáveres de crianças, na complementaridade sem dos rostos (quão impressionante é a interpelação frontal e acusadora das faces impassíveis das mulheres troianas que embalam os filhos fissuras entre o actor e o objecto (o homem e a arma parecem participar de uma mesma natureza), na impassibilidade num contexto de recorte narrativo habilmente estruturado na simbiose de linguagens diversas . A criação dramática de Shakespeare não poderia que mil palavras . E nas relações mantidas entre a criação dramática e outras expressões de cultura revive o paradigma Instabilidade na Construção do Género 89 dança ondulante da seara de gente contribuem para um espectáculo teatral imune a categorizações da livre e desembaraçada apropriação de fontes . Por vezes a tradução na linguagem do filme, da televisão ou do no aparente anacronismo do tocador japonês (conju rando, ainda assim, tradições dramáticas orientais que se cruzam com esse universo povoado vídeo, na especificidade implicada em cada um destes meios de reprodução e reconversão, procura enfatizar uma diferença que permita evitar atravessar incólume águas tão agitadas . Não é, por via de regra, como leitor ou mesmo como espectador que hoje por cantores, dançarinos e atletas vestidos de qui monos mas sobredeterminado por despersonalização enfática e de sentido ritual), na estilização demanda da produção de sentido, não meramente ratificação, em soluções engenhosas, de uma que vão morrer!) parece, em exercício alheio a preocupações de verosimilhança ou às tradições da mimese dramática, activar ressonâncias trágicas teóricas precisas . O distanciamento, inscrito no recurso à legenda que corre no painel electrónico ao fundo do espaço cénico,
 
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novo que desconstrói e reagrupa, e concentra o ângulo de visão da acção dramática na perspectiva refractada de uma personagem: de leitura: o infortúnio abissal do Shylock de Sir Lawrence Olivier (direcção de Jonathan Miller, 1970), apenas traduzido naquele grito seu registo próprio, merecidas réplicas ao homem e ao escritor; e não faltam as heterodoxias especulativas da imaginação narrativa, como homenagem a Christopher Marlowe, e Nothing Like the Sun – A Story of Shakespeare’s Love life (1982), do mesmo autor, velhas contas com o drama isabelino: Shakespeare e os seus colegas de ofício lançaram mão dos textos de contemporâneos e topless na cena da varanda, Catarina empunharia o chicote e o pai correria, aflito, a proteger se . Só no Nuno Ribeiro 90 vontade autoral, pode conduzir a soluções talvez pouco amadurecidas . Teseu apareceria em cena arrastando pela trela Ophelia’s Revenge (2003), de Rebecca Reisert, ou Gertrud and Claudius (2000), de John Updike . Um género literário responde a nenhum deles é fictício – não espreitará a subversão da paródia . Mas o distanciamento pode envolver a consciência do terceiro exemplo, o de The Taming of the Shrew , que reclama as liberdades mais extravagantes da farsa – e uma Hipólita acorrentada e vestida de pele de tigre, Julieta faria as delícias de Romeu ao apresentar se em descontraído animal que se ouve fora de cena, após o lhe devolver o gesto com pagamento em espécie: A Dead Man in Deptford (1993), de Anthony Burgess, é uma digna que se oferece não é exactamente Shakespeare, nas arrojadas ou tímidas metamorfoses permitidas pelo temor reverencial, mas uma criação ex outro género literário, mas estas cumplicidades nem sempre são leais ou generosas quando o poder da imagem coloniza o esforço em Chimes at Midnight (1967), de Orson Welles, vemos simplesmente com os olhos de Falstaff . Acertam se, deste modo, é uma bela evocação de Shakespeare; em Robert Nye, The Late Mr Shakespeare (1998) e, sobretudo, Falstaff (1976), constituem, no de antigos, e agora a narrativa, que constituiu significativa parte desse espólio devassado, ingressa na posição da ficção dramática para
 
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antes de mais, ‘ audience ’, aqueles que estão ali sobretudo para ouvir, e no tempo isabelino o longo discurso, da mente perturbada do príncipe, ou a insinuação de uma presença oculta e silenciosa que observa . Et pur se muove ? E, no entanto, o texto dramático move se sob o impacto desta precipitação meteórica de novas leituras e laboriosamente articulado, não desencorajava a atenção do ouvinte, exprimindo essa comunhão num é mostrado (esta limitação de perspectiva não existe no teatro – aí o espectador viaja na livre orientação do olhar); personagem através de uma leitura activa e crítica ou, no caso dos actores, não os aprisione no contágio exercido por e solitária, apenas acompanhada pela cadência magoada e distante do cântico que chama os hebreus à oração, dá vida a de vida que só a expressão poética e literária lhe pode dar . E, por sua vez, o público é, nem podem, tão pouco, contornar o lugar primordial do texto literário, ponto de articulação dos procedimentos retóricos que lhe dão do Macbeth (1948) ou do Othelo (1952), de Orson Welles, ou, em relação à segunda figura, a do próprio Olivier Instabilidade na Construção do Género 91 julgamento que expulsa o vilão e o esvazia de toda a razão de existir, subversões? Exemplos como estes não podem iludir o estatuto de sujeição de um espectador que só vê o que lhe sentido, palco da ironia, do acervo de imagens de relevância estrutural, da referência temática, das estratégias de persuasão mobilizadas pela (dirigido por John Dexter, em 1963), exigem um esforço de despojamento que não deixe afastar as possibilidades de construção da uma imagem que dificilmente se deixará rasurar do disco duro da nossa imaginação . Do mesmo modo, a poderosa imagem papel do herói, desenham, na pesada atmosfera de filme negro americano, a sugestiva homologia do labirinto do castelo desolado e conjugado com o embaraço de Pórcia ou com o desfecho da peça, que exclui da celebração cómica uma Jessica melancólica essas figuras tutelares . Também os engenhosos movimentos de câmara do Hamlet realizado por Olivier (1948), que nele interpreta o acção dramática, e eixo de indagação de uma ‘consciência íntima’ acolhida a uma estrutura dialógica e contraditória dotada daquela forma
 
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atitude bastante comum, assumida por Charles Lamb no tempo em que Shakespeare era sobretudo poeta dramático e, muito mais recentemente, por G . Wilson Knight (1949, p . vi . ) . Muitos são os ca minhos e, mesmo quando o Verbo, agora também o é, uma inamovível plaque tournante mas sem a autoridade clássica indiferente aos sinais de cena, Almereyda (2000), esse Hamlet mergulhado nas luzes da noite novaiorquina, registando, em obstinado exercício narcísico, a memória e a experiência a leitura e o espectáculo enriquecem se mutuamente, e não poderá, sem mais, exorcizar se como profanação o sentimentalismo verista na sua máquina de filmar . Nuno Ribeiro Universidade do Porto de aproximação a Shakespeare, a intrépida proposta de Baz Luhrmann ( William Shakespeare’s Romeo Juliet , 1996), cheia de som se bifurcam, hão de eles acusar sempre a sua marca de origem . A palavra e a imagem completam se, e fúria, que a terá substituído junto de um público jovem, e mesmo a criação não menos audaciosa de Michael Nuno Ribeiro 92 pensamento vertical atento às modulações de sentido e à intenção persuasiva do texto . No princípio era das escolhas de Franco Zeffirelli e do seu Romeo and Juliet (1968), que terá constituído para uma geração um veículo
 
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