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| O Género Literário - Norma e Transgressão | 190 Seite(n) |
The Literary Genre - Norm and Transgression
John Greenfield (ed . )
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Ausschnitt aus dem Kapitel: O Género Literário – Norma e Transgressão: Notas de Leitura em Poética e História Literária 1
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| género literário e dos correlativos norma e transgressão, uma vez que tais entidades remetem para uma realidade multifacetada e pluridimensional efeito, na formulação formalização do género 1 Como o título da comunicação indica, o texto constitui uma sumária releitura em (nomeadamente a do género), tendo em conta o facto de os últimos engendrarem produtos mais ou menos ‘standard’ . Nas sistema, como um conjunto de práticas criativas reguladas produtoras de objectos da ordem do verbal dotados de uma componente estética, de géneros criado pelos vários agentes do processo literário, manifesta se claramente plural, gerando acordos em perpétua reavaliação . Com quer nos planos da reflexão e da prática do literário quer na pluralidade inerente aos próprios actos verbais . Entidade suas reflexões sobre a questão em debate no presente colóquio, o referido investigador frisa a complexidade inerente ao conceito de e combinatória compõem a prática verbal a que chamamos literatura . ‘Suporte’, horizonte teórico prático, pólo germinal de textos e diagonal e não uma síntese propriamente dita de algumas questões abordadas por Jean Marie Schaeffer, relativamente aos conceitos de género, muito forte e o popular ou paraliterário visto estes apresentarem uma maior estabilidade, ao nível da vigência de certas convenções O Género Literário – Norma e Transgressão: Notas de Leitura em Poética e História Literária 1 Encarando a literatura enquanto Schaeffer, constata uma diferença marcada entre o seu registo erudito, socialmente valorizado, onde o papel da subversão detém um poder norma e transgressão, nas seguintes publicações: Schaeffer (1986), Schaeffer (1989), Schaeffer (1996), Schaeffer (1997) e Schaeffer (2001) . demarcatória diferencial, garantia suposta de uma dada ‘identidade’ literária, o mencionado conceito permite definir ou delimitar particularidades distintivas cuja organização |
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| âmbito da Estética, uma vez que nele radica o lado formal, poético por excelência, do literário . Por sua vez, campos disciplinares múltiplos (Poética, Estilística, Retórica, História Literária, Linguística, Estética e Sociologia) cujas respectivas ‘filtragens’ operatórias lhe conferem aspectualidades relativizantes embora este último a equacione num âmbito outro, apostado numa visão historicista evolutiva), instaurando especificidades e particularidades; cumpre ipso facto um diálogo de disciplinas que se desprende não só da taxonomia, mas também da memória do próprio sistema e simultaneamente e concreta dessa categoria abstracta, exigindo e desen cadeando descrições analíticas de ordem vária, repartindo se o seu estudo por problemática recobre diversas acepções, maioritariamente as de tipo, enquanto classe de textos, e de género histórico como mani festação factual . Modalidade de exercício da literatura, a referida categoria confina se pois entidade taxonómica interna, enquanto tipo, e externa, enquanto os primórdios na reflexão teorética ocidental onde ocupa uma posição central (cf . Aristóteles, Classicismo mas também Hegel e Brunetière, literário e também pela História Literária nas suas dimensões paradigmática (Genologia) e sintagmática (Periodologia), apela ainda para uma abordagem do enquanto manifestação histórica, social e institucional, tal categoria reclama leituras da ordem da Pragmática e da Sociologia, gerando se então do sistema enquanto memória, neles se inscrevendo . Constitutiva e constituinte, a referida entidade presentifica se de modo nuclear desde impossibilidade de abarcar descritiva e/ou analiticamente a ordem do literário na globalidade da sua natureza e funcionalidade . A mencionada uma função que Schaeffer designa género histórico, tornando se responsável tanto por uma determinada ordem manifestação do literário na sua combinatória intrínseca quanto pela sua Celina Silva 2 como universal confluem critérios especificamente literários (formais, poéticos, retóricos), temáticos, sócio culturais, pragmáticos, dando conta da quase delimitação e alargamento no tocante à extensão de campo . Questionado pela Poética, quando encarado como espécie do exercício do |
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| decurso da sua história e através da multiplicidade das suas actualizações, inflexões modalizantes que, de conceito, o tornam preceito, em surgiu na cultura ocidental uma mutação inflexão portadora de cariz directivo, passando, num dado momento, o exercício da teorização na da existência do género; de regularidade constatada, garante de uma dada identidade supostamente instauradora da permanência do literário, aquela converte durante longo tempo, (cf . final da Antiguidade, Idade Média e Classicismo) origina uma preceptística e uma produção literária nas como tal postulada . Esse cunho prescritivo que na categorização se insinua, acabando por nela se instalar de maneira cabal O Género Literário – Norma e Transgressão 3 ‘fronteira’ ao delimitar, no interior dessa actividade verbal criativa, modos específicos de ao nível do sistema poético tipos, e ao da historicidade da actividade literária géneros históricos, segundo se viu, constata se aplicações . No devir da actualização, no decurso da prática da escrita, da norma decorre a transgressão e, se a quais está patente a implicação mútua entre norma e transgressão . A norma deriva por inerência e /ou por consequência que a norma não é única nem tão una ou unificada como pode parecer, mas vária e múltipla nas suas sua globalidade de uma ordem formal conceptualizante para uma postura normativa, uma ordem ordenação . Assim, o género adquiriu, no primeira não é singular, a segunda é claramente múltipla, tendencialmente infinita . A transgressão não existe nem actua sem a . Ambas irredutivelmente relativas e relativizáveis, engendram em cada manifestação forçosamente situações de desvio, em maior ou menor grau, consequência grande parte derivadas de uma dada recepção de Aristóteles e do papel assumido por Horácio, guardião da ‘tradição áurea’ ou norma, uma vez que é sempre diferencial, inversão dos critérios em vigor postulados pela primeira, recusa violenta do instituído, ruptura vigência, configuradores de uma dada concepção do literário . No seio da reflexão relativa à prática literária e suas características se em factor de regulamentação que necessariamente engendra, ora produções a ela conformes ora desviantes ou até marginais . Havendo das diferentes |
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| de norma a subverter, o nível ou traço normativo a transgredir, o alcance da operação de ruptura . Schaeffer, para tipo e do género histórico, quanto a (sua) necessária renovação . Com efeito apenas no lado criativo, radica a condição género está contida por inerência a referida ‘genericidade’ cuja dinâmica e potencialidade asseguram, não só a permanência do sistema, do depende da sua suposta natureza (convenções poéticas, retóricas, mas também éticas e sociais), da sua historicidade interna tanto quanto de novas combinatórias e configurações que redimensionam o todo; perpetua mas também trans forma, amiúde alargando, quando não criando outros géneros, Celina Silva 4 interpretações que a norma suscita, bem como de determinados contextos extra literários . A actualização do género a ‘genericidade’, realçando assim o poder gerativo, a capacidade germinal, o pólo matricial como dimensões constitutivas do literário . No implica práticas selectivas, escolhendo na complexidade dos procedimentos de cunho prescritivo qual a norma propriamente dita a atingir, o tipo da lei, da regra porque todas derivam de uma operatória selectiva . Em cada época, cada corrente, cada autor se produzem necessariamente mecanismos de selecção face às entidades normativas a que se reportam, variando pois a transgressão em grau, em número e em nível relativamente a cada um destes factores em particular . A definição de norma, desvio e ruptura condicionantes da ordem do pragmático . A este nível norma e transgressão coincidem, ou podem coincidir, em concomitância à formulação novas espécies de materialização, diferentes concretizações geradas através da recombinatória do sistema e os elementos constituintes do mesmo . O de mútua implicação . A ‘genericidade’ permite o engendramento de textos e, portanto, a instauração de obras, produzindo em simultâneo, de vigência, de permanência, de alargamento de todos eles e do todo dinâmico que compõem, visto se encontrarem em situação além de equacionar as acepções ‘ tradicionais’ da categoria do género acima mencionadas, aponta para uma outra dimensão da mesma, |
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| vai do tipo de discurso (poesia, ficção) a normas literárias específicas (formas fixas) , passando por convenções implícitas que funcionam co existem, ou podem coexistir, várias normas genéricas distintas, díspares e até contraditórias, pelo menos aparentemente, marcadas pela particulari dade género engendra necessariamente diferen tes formulações e diversas aplicações da dita norma no exercício da escrita, não existindo então, nem e portanto produtiva, ora uma função inibidora, como demonstram Clas sicismo e Romantismo respectivamente . elegia), ou ainda enquanto compósito de todos estes factores . Esta categoria apresenta, na sua definição, traços múltiplos que as O Género Literário – Norma e Transgressão 5 dinamismo intrínseco à matéria literária, ao ser processual do poético, engendra um da pragmática em que se inserem . Segundo a óptica conceptu alizante adoptada, a norma cumpre ora uma função activadora, bem mais velado ao nível da reflexão teórico crítica que na produção literária (cf . as polémicas do ao longo permanente redimensionar do género em si mesmo, dos géneros entre si e da relação que estes estabelecem com o sistema actualizações presentificam simultânamente, transformando ou subvertendo a norma instituída, ou antes, a normatividade que a tradição em certos momentos e como ‘hábitos literários’ (conto), relações de parentesco temático (romance policial), de modalização hipertextual ou genealógica (romance picaresco), determinações situacionais (panfleto, unidade nem linearidade quer ao nível da teorização quer da prática . Em todas as épocas literárias e de modo de uma maior perenidade . O género é pois um conceito polissémico, designando uma marca, um traço comunicacional geral que do Séc . XVI e as posições de Castelvetro e G . Bruno, a Querela dos Antigos e dos Modernos) literário enquanto instituição, sobre ele criando, em constante recombinatória reestruturação, equilíbrios mais ou menos estáveis, con sensos episódicos, ou dotados correntes, projecta na entidade genérica . Constituído por uma variedade de componentes e afectado por factores de ordem múltipla, o |
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| Celina Silva 6 A prescrição visa garantir a estabilidade do sistema e controlar a escrita no intuito de assegurar a consensos, sucessivas taxonomias impulsionadas e exigidas pela acção da ‘genericidade’, condicionadas pelo devir da historicidade . Supostamente, teria havido na identidade genérica relativamente coesa e ‘forte’ (cf . Classicismo), orquestrada por uma determinada do género’ garante uma prática literária digna desse nome, no Romantismo, esta entidade converte se em ‘forma natural’ da literatura poéticas normativas por oposição a uma actual vigência proteiforme no exercício da escrita que, numa óptica tradicional simplista, gera produtos da hibridização e da fragmentação no Romantismo . Deste modo se recombinam evolutiva mente a prática literária e a reflexão de si mesmo e do sistema . Tal categoria redefine linhas demarcatórias conceptuais integradoras de propostas transgressivas no interior de dotada de cariz gerativo e, posteriormente, em entidade evolutiva . À semelhança da literatura, o género inscreve se na historicidade inclassificáveis, autênticas entidades teratológicas segundo a tratadística . Numa visão primária dir se ia que num dado passado prevaleceu uma prática e na teorização literária um longo passado estável face à instabilidade presente, uma ‘ordem una’ e harmoniosa, consignada nas permanência de elementos sentidos e postulados como paradigmáticos, constitutivos; ‘código’, ‘codificação’, ‘memória’ ou ‘reserva do sistema’; o género, funciona no novas fronteiras, atestadas e exemplificadas quer pelas operações geradoras de novos géneros no pós Renascimento, nomeadamente na Lírica quer através assim sendo, vai constituir e construir uma dada tradição que se perpetua ou pelo alargamento ou pela contenção das fronteiras decurso da historicidade enquanto entidade nuclear, orgânica, condição sine qua non da existência do literário . No Classicismo, a ‘pureza tendo contudo, uma história independente da do sistema em que se insere, mas para a qual contribui de modo marcado; sobre ela em constante processo de relativização, de releitura dialéctica do passado e se vão estabelecendo novos e sempre provisórios |
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| da escrita, marca fundadora e definitória por exce lência do literário tal como hoje o concebemos . Porém, tal não alvo objecto de ruptura ou desvio . Se a norma hierarquiza, selecciona e reduz, ela é profunda alteração no sistema por alargamento ou por ruptura . Campo instável e aberto, o estudo da história do literário na produção literária dos séc . XVII e XVIII) . A não contemplação pelas poéticas de muitas obras consideradas ‘acanónicas’ . Entre ‘identidade’ genérica e ‘genericidade’, não existe uma relação única mas múltipla, uma vez que se desencadeiam estratégias operatórias papel por elas desempenhado de facto; o de ‘formas vivas’ e actuantes, a ponto de provocarem, a longo prazo, uma consciência da literatura como sistema dotado de uma dada qualidade ‘unitária’, universal, tal concepção defendida pela Poética Essencialista resulta de e portanto não literárias, segundo a perceptística, ou o silêncio que em torno delas se fez, não lhes retira o muito diferentes no tocante ao afas tamento e à ruptura que se pretende implementar, como se viu . Com efeito, enquanto disciplina em constante reelaboração, incessantemente infere novos elementos ou novas relações entre os elementos já conhecidos, alterando se assim O Género Literário – Norma e Transgressão 7 ‘doutrina’, enquanto no Pós Romantismo actua a pura ‘genericidade’, tomada como motor . Para além do mais, o modo de escrita inspirado pela concepção de Classicismo como protótipo da referida ‘pureza formal’, tais propósitos dependem do género propriamente dito, do nível e até do tipo de traço genérico que se selecciona como se verifica . A norma, ao remeter para uma codificação mais ou menos rígida, radica e deriva na e da uma selecção hierarquizante específica de valores que não são só literários, mas também éticos e sociais segundo se mencionou anteriormente a visão pré estabelecida; ruptura, crise, heterogeneidade, deriva, indeterminação, compósito, dissolução e polifonia corporizam manifesta ções diversas da ‘genericidade’ textual literária surgida nas épocas em que aquele constitui o paradigma dominante como Schaeffer aponta (cf . o papel do romance teorizada e praticada por muitos, por uma maioria em determinados momentos, não abarca a totalidade da produção que hoje consideramos |
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| em sentido contrário, podendo no entanto, desdobrar se e reduplicar se mais facilmente que aquela, movendo se ou tendo a da mimésis que não vingaram historicamente segundo Dolezel 2 demonstrou, ao reflectir sobre a hipótese de alargamento e sobrevivência do Classicismo Alemão concebendo o, por um lado, como ultrapassar do Iluminismo e por outro, enquanto distanciamento crítico da prática vigente poético por ela engendrado e ainda não concretizado . Houve ao longo do século XVIII tentativas de reformulação da estética norma e pelo sistema de prescrições adoptado, na Alemanha, Goethe e Schiller pensaram e instauraram o que consideravam ser um Celina Silva 8 simultaneamente a resultante dessas mesmas operações . Por sua vez, a transgressão opera de maneira semelhante embora francesa’ supõe, numa visão superficial, um campo categorial estável, onde a emblemática ‘pureza do género’, evidencia a actuação exercida pela estéril, dada a ‘exaustão do modelo’ por eles inferida a partir das produções coetâneas, óptica essa que o posterior movimento capacidade de o fazer em quase todas as direcções . Um dado sistema poético com uma designação única recobre ou que (sem o saber e sem o querer) eram já pós clássicas e 2 Cf . Dolozel (1990), pp . da Antiguidade Clássica e sua poética, o modo como Goethe e Schiller dela se apropriam, é que vai contribuir fortemente em França . Tal procedimento visava reequacionar, através de uma releitura da Antiguidade Clássica, o que estava latente no sistema 57 – 87 . para instaurar uma ‘visão fechada’ sobre o Classicismo, nomeadamente sobre o Neo classicismo, tornando o um paradigma caduco e portanto pode recobrir manifestações literárias radicalmente distintas como atesta o caso do Classicismo a mero título de exemplo: na sua ‘versão romântico acentuará . O ‘Clas sicismo Alemão’ de Goethe e Schiller resulta, portanto, de uma reflexão e de uma busca paradigma clássico através de uma ‘poética dos mundos possíveis’ . Com efeito, a perspectiva que o Romantismo Alemão constrói acerca |
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| como de género são de certa forma e em grande parte forjadas pelo presente . Criação e projecção da cosmovisão apostando na abertura, na dispersão, na ruptura . A concepção de uma dada ‘tradição’, de um ‘passado’, de uma história que cada geração constrói, posicionam se de modo próprio face à dominante postulada . O literário, entidade socialmente regulada através consequência do génio criador e pela ânsia de circunscrever o presente, o paradigma clássico de uma postura essencialista atestada nas na óptica acima mencionada, era pensada como activação do ainda não actualizado ao longo da História; assim o sistema de de momentos e vigências do que se chama actualmente literatura enquanto relação múltipla e complexa das obras entre si, bem práticas e teorizações pós renascentistas, para um exercício criativo teórico prático que o relativiza, o historiciza de um modo particular, apelidadas, bem posteriormente, pré românticas . Ao acentuar a singularidade da obra e o papel primordial da sub jectividade na da prática e da reflexão a ela inerente, e em simultêneo dela consequente, está em incessante reestru turação, organizando se produção, estes poetas teóricos adoptaram como procedi mento construtivo a ‘dispersão’ e miscigenação dos géneros, utilizando a força gerativa a segundo novas hierarquias; ora instaurando outros paradigmas ora reequacionando o paradigma vigente, ou ainda reactivando paradigmas supostamente caducos . Entidade processual, ger minação perene, o literário existe e age enquanto devir, no qual incabe entre outras dimensões a ‘genericidade’ . O Género Literário – Norma e Transgressão 9 ainda não românticas, mas que para tal caminhavam, tendo por isso sido géneros da Antigui dade Clássica foi lido e tratado como matriz, deslocando, pela via da indi vidualidade irredutível da obra, que os seus seguidores formularão como síntese dialéctica . A relação de filiação filosófico poética do antigo e do moderno, à suposta unici dade do sistema, potencia a exploração sistemática da dimensão da ‘gene ricidade’ radicada numa procura da unidade eles inerente como meio de concretizar o potencial da Poética Antiga . O ataque à ‘tópica normativa’, ao decorum , |
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| se diversificando e tornando independente da Poética Normativa, a começar pela Crítica e posteriormente com a emergência da História Literária, uma dada ordem universal, mas, em simultâneo, de uma irredutível identidade e portanto uma diferença . De cada uma delas ‘acanónicas’ na acepção da perceptística corporizou se e corporiza se no interior dos próprios textos e ainda ao nível do paratextual (prefácios, posfácios, cartas) bem como posteriormente em ensaios e textos críticos, metatextos . Por conseguinte o exercício reflexivo foi um novo género, uma nova concretização da dita categoria . O olhar sobre as produções pós renascentistas faz nos aceder se espera o concretizar de uma relação de pertença genérica particular, porque todo o texto aponta para um género como a uma formulação conceptual elaborada em torno de práticas, díspares e diversas, geradoras da lenta emergência do fenómeno hoje chamado disciplina onde a problemática do género ocupa um papel fulcral (cf . Hegel e Brunetière) e, por último, com a Teoria da Literatura propriamente dita . Desde do Pós Renascimento, a evolução intra sistémica implica uma história ‘vectorizada’ dando origem a uma ininterrupta re inovação por rupturas no interior do conceito de ‘moderno’, curiosamente epíteto empregue de modo sistemático desde no campo literário propriamente dito, o âmbito da teorização é hoje muito mais vasto que o recoberto pelas poéticas normativas, Schlegel afirmou e Schaeffer entre outros relembra, mas também uma realização singular em si mesma podendo, em última instância, criar sua versão ocidental, a cada uma das suas manifestações (obra singular, autor, corrente ou movimento) que, paradoxalmente, actualize marcas de da Idade Média . Sempre redimen as quais constituem um género de textos teóricos entre outros . Com efeito, a reflexão sobre géneros e práticas supostamente literatura, resultante da evolução do primitivo conceito de ‘poesia’ passando pelo de ‘belas letras’ . À semelhança do que acontece Celina Silva 10 Implicando a entidade actividade literária uma vigência específica da linguagem dotada de um teor institucional, exige, na |
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| rupturas’, a tradição é vista como uma ‘continuidade descontínua’, onde o novo substitui o antigo, mas nem sempre de maneira do novo’ . Assim se instauram operações recom binatórias pela supressão, ou pelo alargamento, através da distorção ou expansão, de possibilidades de aplicação, mas, só subsiste como tal, se se auto regular e transformar, o que acarreta desvio e / um sistema de hierarquias cognitivas, antropológicas, sociológicas e estéticas . A história do género na literatura e na poética ocidentais ou transgressão; identidade implicando alteri dade porque correlativas . Porém, o teor da transgressão, o nível ou o elemento da apresenta se grosso modo quer como uma aceleração crescente do ritmo das trans formações genéricas no decurso dos séculos quer norma objecto da operação de ruptura encontram se condicionados pelo presente, o momento histórico e histórico literário no qual a radical ou definitiva porque, quando não cabal na relação problemática esta belecida pela literatura contemporânea face ao conceito de género e sua teorização bem como a mesma se efectua . A configuração do passado produzida por cada época depende de uma dada cosmovisão e portanto de O Género Literário – Norma e Transgressão 11 sionado, actualizado porque radica numa afirmação de diferença, que se torna factor mencionada categoria é constituinte de modo paradoxal, na medida em que a tradição do género determina um dado número de formas múltiplas cuja operatória depende do alcance da definição de presente e passado . Tal cariz está demonstrado de maneira enquanto passagem do género concebido mais ou menos normativamente, à ‘genericidade’ . Este tipo de dinâmica evolutiva da historicidade toma imperativo de produção, age como motor de uma prática cujo ponto emblemático se situa no Romantismo, movimento inaugurador da ‘tradição consequente importância do papel do conceito de texto na prática criativa e reflexiva . Ao verificar se uma ‘evolução por que se auto define e auto regula . A relação da literatura enquanto sistema e da prática literária com a um ou mais traços, níveis, marcas específicas de modo ínfimo ou máximo, até ao limite possível da materialização da categoria |
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| instaurando uma qualquer relação de pertença, nem que seja pela seu contrário (cf . ‘contra género’), ou ainda por um parodia o . Todavia, mesmo em presença desta postura limite, a história dos géneros e do género está lá, no sistema; age na, sobre e através da competência genérica do autor e do leitor como vestígio da ordem – ordenação neutralização ou absorção, tornando se marca épocal, histórico, num sentido inverso àquele em que tinha surgido . Depois da Renascença, anterior que supostamente (ou não), perdeu a força matricial ou um posicionamento hegemónico no sistema . A relação autor / maior ou menor grau de denegação . Tais pressupostos atestam a progressiva complexificação da prática literária ao longo da sua vigência na cultura ocidental e a consequente ramificação e especialização da reflexão sobre ela . entanto na memória do sistema que recupera tudo, até o próprio valor de transgressão, o qual é também susceptível de de transgressão . Esgotado o seu poder germinal de produção, enfraquecido ou simplesmente dado como tal, o género permanece no a diferenciação genérica torna se cada vez mais marcada porque cada autor determina, é chamado a determinar, o lugar que leitor face ao dito sistema é vista como uma sucessão histórica descontínua e oblíqua, na qual o papel da obra no interior da sua obra . Assim sendo, este tem que evidenciar competência, domínio das convenções, conhecimento do passado do tem que se inscrever, criando o seu espaço, mas para tal, necessita de o inscrever no seu interior, ou melhor, Celina Silva 12 tenta ou não consegue torná lo inoperante, como propõem as vanguardas, incorpora o, ‘traveste o’, fragmenta o, Com efeito, a identidade do poeta, a sua voz textual, vai se posicionar face a esse sis tema onde ele concebida como entidade autotélica, elemento único de uma ordem temporal cuja finalidade reside na sua própria realização, engendra a necessidade sistema e dos modelos para os actualizar, pela positiva ou pela negativa, produzindo textos onde um dado parentesco se manifesta a obra por ele produzida pode e deve ocupar no sistema literário de modo a obter legitimidade, estatuto literário . |
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| e provoca simultaneamente uma releitura de modo diverso ou inverso da tradição das poéticas e da escrita bem como da ou inovadores significativa e eficazmente do estado presente da literatura . Não se podendo de antemão, nem à partida, determinar distância temporal e do distanciamento crítico que permitem, de facto, constatar os processos realmente operativos e como tal transformadores, reelaboradores O Género Literário – Norma e Transgressão 13 A transformação dos mecanismos de regulação regulamentação, claramente variáveis e múltiplos, deriva gerando entidades ao mesmo tempo canónicas e ‘acanónicas’, singulares e universais . Na Pós Modernidade a mistura fusão dos géneros, própria evolução genérica, igualmente plural e complexa, uma vez que o destino daquela se encontra inscrito nos textos . No e interacção de uma obra à outra, na transtextualidade, capacidade relacional face a textos e a géneros (cf . arquitextualidade), a prática alargada da citação e a desconstrução irónica engendram casos de escrita quase ‘inclassificáveis’ aos quais se pode apenas entanto, este decide se e joga se no texto em si, na complexa operação de textualização, mas também na passagem escrita alimenta se de modo preferencial de uma das vertentes da ordem do literário; a reflexiva e auto reflexiva . Para tais questões, entre muitas outras, nos adverte Jean Marie Schaeffer . Celina Silva Universidade do Porto referir como ‘transgenéricos’ ou simplesmente textos . O olhar actual sobre a escrita contemporânea enferma da impos sibilidade da necessária como todas as coetâneas, tem a marca do testemunho vivo e vivido e o risco a ele inerente . Com as configurações e articulações que se tornarão produtivas, e, de entre essas, quais ocuparão uma posição hege mónica nos estados futuros da vigência do literário, nem tão pouco o que estes serão ou que combinatórias produzirão, a teorização contem porânea, efeito, numa época em que a dinâmica genérica se manifesta plenamente, quer como identidade, quer como ‘genericidade’, a prática da |
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| 179 205 . Jean Marie Schaeffer, Qu’est ce qu’un genre littéraire? Paris, 1989 . Jean Marie Schaeffer, De deux facteurs Celina Silva 14 Bibliografia Citada L . Dolozel, Poética Ocidental – Tradição e Inovação . Lisboa, 1990 . Jean Marie Schaeffer, Du texte au genre . In: AA . VV . , Théorie des Genres . Paris, 1986, pp . Universalis . Paris, 1997, pp . 339 343 . Jean Marie Schaeffer, Les genres littéraires d’hier à aujourd’hui . In: . pp . 49 60 Jean Marie Schaeffer, Genres Littéraires . In: Dictionnaire des Genres et Notions Littéraires . Encyclopaedia institutionnels de la différenti ation générique . In : AA . VV . , Textes et Sens . Paris, 1996 L’Éclatement des Genres au XXième Siècle . Paris, 2001, pp . 339 343 . |
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